28 de dez de 2009

:: Vitruviano ::

E é esta a prisão que me cabe: esta de carne, de pele e de ossos, esta destes olhos que não me permitem enxergar mais do que apenas o que está à frente, destas pernas que me levam a somente um lugar de cada vez, destes braços que querem abraçar o mundo mas alcançam apenas aquilo que lhes está próximo. É a prisão destes pulmões que não retém ar suficiente para permitir-me descer às profundezas do mar, que limita meus horizontes à linha d'água; prisão à terra, me proibindo de atravessar nuvens e tempestades em pleno vôo, prisão que é este coração, que recompõe-se apenas a tempo de ver-se, novamente, jogado ao chão, estilhaçado, e recomeçando, qual Sísifo, seu eterno trabalho: renascer.

Esta é a prisão, este corpo; a mente voa livre, voa em pensamentos que alcançam mais do que as palavras conseguem conceber, mas sempre para retornar a este invólucro, esta pequeneza, esta limitação pela qual julgam, todos, ao primeiro olhar, sem saber dos universos que esconde, dos passados, presentes e futuros, das fantasias e realidades, e para o qual concebem rótulos indignos e pueris, falhos como a ignorância lhes faz ser.

E é desta prisão que, em linhas, liberto-me de quando em vez.

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Publicado por Renato Alt


21 de dez de 2009

:: Retórica ::

Talvez seja hora de deixar alguns pensamentos para trás.
Realizar que existem aquelas ruas e olhares com o quais nunca hei de cruzar.

Talvez seja hora de entender que o caminho fez-se por si mesmo, muito mais e além de qualquer plano que pudesse ser traçado, e que o desenrolar da história opera de acordo com seus próprios caprichos, de acordo com seu próprio querer, e que nossas tentativas de tomar as rédeas rendem apenas cansaço e, eventualmente, desistência.

Talvez seja hora de entender que nunca terei os sorrisos de alguns daqueles por quem tanto me esforcei, que talvez não vá ter sequer o olhar condoído daquelas que, sabendo disso ou não, foram minhas musas e fizeram tantas linhas escorrerem por entre meus dedos, chegando aos olhos de tantos que lêem e que tem, de mim, suas próprias idéias pré-concebidas, seus próprios conceitos a respeito de alguém que grita nas esquinas, a todos e a ninguém, sob a vã esperança de ver surgir alguma cumplicidade, algo mais que se destaque do cinza que permeia nossos dias e esperanças.

Talvez seja hora, apenas, de silenciar, e compreender a inevitabilidade de alguns fatos.

Eis-me aqui, agora.
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Publicado por Renato Alt

14 de dez de 2009

:: Avatar ::

Então você acha que me conhece.

Porque riu comigo uma vez, em uma mesa de bar, e soube que prefiro os filmes que trazem mais perguntas do que respostas. E porque percebeu que prefiro não falar de mim quando já estão todos alterados por causa da bebida, e pouca distinção fazem entre as palavras ofensivas e as que cabem para falar de um amigo. Acha que me conhece porque eu disse que ainda não sei o que pretendo fazer comigo nos proximos cinco minutos ou vinte anos, ou porque soube que prefiro ouvir musica pesada quando estou sozinho para evitar que os pensamentos falem mais alto do que estou disposto a escutar.

Guarde sua caneta. Não há definição que se contente em qualquer palavra que possa sair dela.

Mas, se ainda assim lhe aprouver, sigamos. Entre um percalço e outro, talvez descubramos, juntos, mais uma ou duas verdades.

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7 de dez de 2009

:: Lótus ::

Estava parado havia alguns minutos, e tentava encontrar-se no mapa que nem ao menos sabia mais se estava segurando na posição certa.

O largo próximo ao museu do Cairo era, como não poderia deixar de ser, enorme, e perdido como estava, as mesmas coisas que o encantaram até li pareciam agora assustadoras: o caos de carros e pessoas, de buzinas incansáveis, de mulheres cobertas da cabeça aos pés qual fantasmas vespertinos, de vendedores oferecendo falsos papiros e autências pedras retiradas da Grande Pirâmide, o calor desnorteante e a garganta seca, os lábios rachados e a oração da tarde ecoando por um sem-número de mesquitas.

E então veio o rapaz, solícito, falando um inglês, no limiar do compreensível, e entre palavras perdidas e gestos confusos conseguiu se fazer entender, e era isso oferecer-se como ajuda; o desespero na cara do turista o denunciava como tal.

Apanhado de surpresa, seguiu o egípcio através de ruelas barulhentas e estreitas, desviando de incontáveis máscaras de Tutankamon, desviando de gatos que, curiosos, vigiavam seus passos e o acompanhavam à distância. Chegaram à pequena loja, que pareceu emergir do caos, e entrou apenas para sentir-se, no momento seguinte, envolvido por tantos odores que seu olfato sequer sabia por onde começar. Era uma loja de perfumes, e era como se todas as flores do mundo se tivessem comprimido a fim de acomodarem-se em um dos pequenos e delicados frascos que pareciam frágeis a ponto de se poderem quebrar apenas com o olhar.

E ele sentou-se na diminuta loja, e seu novo amigo lhe preparara chá. Trouxera um caderno e, entre movimentos das mãos e o inglês que aprendera nas ruas, pediu que o lesse: estava escrito e assinado por dezenas de viajantes que, como ele, em algum momento se viram perdidos e foram socorridos por aquele homem franzino, barbudo, com a aparência de quem acabara de sair de uma das histórias recitadas por Sherazade. O caderno era uma Babel, e assinaturas apontavam-no para os quatro ventos, para horizontes ainda distantes. Aos poucos, o final do dia assumia tons e cores surreais, fazendo-o pensar estar em um sonho e temer, mais ainda, acordar.

E beberam chá. E ele assinou o caderno. Comprou perfume, após saber que fora feito (como todos ali) apenas da flor triturada e esmagada, encantado que estava com a delicadeza que permeava todo o lugar. Deixou Euros sobre a mesa, para chamar a sorte, como aprendera ser cultura local e, agradecido, saiu.

Era noite, agora, no Cairo, mas já não se sentia perdido: era como se a conhecesse desde sempre e, assim, eram ambos, ele e a cidade, um só.

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Publicado por Renato Alt