7 de dez de 2009

:: Lótus ::

Estava parado havia alguns minutos, e tentava encontrar-se no mapa que nem ao menos sabia mais se estava segurando na posição certa.

O largo próximo ao museu do Cairo era, como não poderia deixar de ser, enorme, e perdido como estava, as mesmas coisas que o encantaram até li pareciam agora assustadoras: o caos de carros e pessoas, de buzinas incansáveis, de mulheres cobertas da cabeça aos pés qual fantasmas vespertinos, de vendedores oferecendo falsos papiros e autências pedras retiradas da Grande Pirâmide, o calor desnorteante e a garganta seca, os lábios rachados e a oração da tarde ecoando por um sem-número de mesquitas.

E então veio o rapaz, solícito, falando um inglês, no limiar do compreensível, e entre palavras perdidas e gestos confusos conseguiu se fazer entender, e era isso oferecer-se como ajuda; o desespero na cara do turista o denunciava como tal.

Apanhado de surpresa, seguiu o egípcio através de ruelas barulhentas e estreitas, desviando de incontáveis máscaras de Tutankamon, desviando de gatos que, curiosos, vigiavam seus passos e o acompanhavam à distância. Chegaram à pequena loja, que pareceu emergir do caos, e entrou apenas para sentir-se, no momento seguinte, envolvido por tantos odores que seu olfato sequer sabia por onde começar. Era uma loja de perfumes, e era como se todas as flores do mundo se tivessem comprimido a fim de acomodarem-se em um dos pequenos e delicados frascos que pareciam frágeis a ponto de se poderem quebrar apenas com o olhar.

E ele sentou-se na diminuta loja, e seu novo amigo lhe preparara chá. Trouxera um caderno e, entre movimentos das mãos e o inglês que aprendera nas ruas, pediu que o lesse: estava escrito e assinado por dezenas de viajantes que, como ele, em algum momento se viram perdidos e foram socorridos por aquele homem franzino, barbudo, com a aparência de quem acabara de sair de uma das histórias recitadas por Sherazade. O caderno era uma Babel, e assinaturas apontavam-no para os quatro ventos, para horizontes ainda distantes. Aos poucos, o final do dia assumia tons e cores surreais, fazendo-o pensar estar em um sonho e temer, mais ainda, acordar.

E beberam chá. E ele assinou o caderno. Comprou perfume, após saber que fora feito (como todos ali) apenas da flor triturada e esmagada, encantado que estava com a delicadeza que permeava todo o lugar. Deixou Euros sobre a mesa, para chamar a sorte, como aprendera ser cultura local e, agradecido, saiu.

Era noite, agora, no Cairo, mas já não se sentia perdido: era como se a conhecesse desde sempre e, assim, eram ambos, ele e a cidade, um só.

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Publicado por Renato Alt

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