28 de dez de 2009

:: Vitruviano ::

E é esta a prisão que me cabe: esta de carne, de pele e de ossos, esta destes olhos que não me permitem enxergar mais do que apenas o que está à frente, destas pernas que me levam a somente um lugar de cada vez, destes braços que querem abraçar o mundo mas alcançam apenas aquilo que lhes está próximo. É a prisão destes pulmões que não retém ar suficiente para permitir-me descer às profundezas do mar, que limita meus horizontes à linha d'água; prisão à terra, me proibindo de atravessar nuvens e tempestades em pleno vôo, prisão que é este coração, que recompõe-se apenas a tempo de ver-se, novamente, jogado ao chão, estilhaçado, e recomeçando, qual Sísifo, seu eterno trabalho: renascer.

Esta é a prisão, este corpo; a mente voa livre, voa em pensamentos que alcançam mais do que as palavras conseguem conceber, mas sempre para retornar a este invólucro, esta pequeneza, esta limitação pela qual julgam, todos, ao primeiro olhar, sem saber dos universos que esconde, dos passados, presentes e futuros, das fantasias e realidades, e para o qual concebem rótulos indignos e pueris, falhos como a ignorância lhes faz ser.

E é desta prisão que, em linhas, liberto-me de quando em vez.

...

Publicado por Renato Alt


Nenhum comentário: