25 de jan de 2010

:: Pardal ::

Ele segurou a capa do LP, e com a mão tirou a fina camada de poeira que o esquecimento depositara ali. Ainda havia o toca-discos, encostado há tempos num silêncio resignado, como se contando os dias até que enfim alguém lhe notasse a presença e lhe desse destino.

Foi com passos lentos, como se carregasse nos ombros o peso de toda uma vida, que ele aproximou-se do aparelho e levantou a tampa, que ergueu-se em um rangido de protesto.

Piaf. A música dos legionários.
Ele riu, um riso doído, engasgado, apunhalado pela ironia do momento.

Não era hora para alta definição, para surround, para home theater. Queria ouvir a agulha arrastando-se pelos sulcos, queria ouvir as caixas de som estalando e esforçando-se para fazer ouvir a voz da pequena e poderosa francesa, queria a força dela falando por ele através de uma intensidade que, ao ouvir, tranformava em lágrimas o furor e a frustração.

Non, Je Ne Regrette Rien.
Mentira.

Nunca antes quisera tanto acreditar em uma mentira. E afinal o que é a verdade, senão aquilo em que você resolve acreditar? Ele lhe oferecera amizade, oferecera a mão para ajudar a levantar, o ombro para quando fosse preciso chorar, a cumplicidade para risos perdidos; mas ela não os quis, não ouviu, não se permitu, ao menos, conhecer.

Non, Je Ne Regrette Rien.
Entre o chiado do disco e as falhas em sua voz, ele entoa a própria alma no seu fingimento de francês.

Ela, indiferente, sequer sabia que ele o fazia.

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Publicado por Renato Alt

18 de jan de 2010

:: Recado ::

“Nem a conheço, ou ao menos não como gostaria, mas você se acha no direito de me julgar através do quê? Do que ouve de mim, ou ainda, do que lê, supondo que se as palavras não são as que você usaria então o que digo não é sincero. Acha que o sentimento só é visceral se for espalhado em uma dúzia de argumentos de baixo calão, se for vomitado com desprezo, se pouco sentido fizer pra quem os diz desde que venham aos borbotões, enquanto os cabelos são arrancados e a voz se torna estridente e insuportável.

Mas as coisas não são como você gostaria que fossem. Nem mesmo as desagradáveis.

Já lhe ofereci respostas de todos os tipos: as cordiais, as incisivas, as amigas e nunca – nunca! – contraditórias, ainda que, escondida em seus maneirismos, em seu hálito e seu martini, você tenha se recusado (e eu nunca tenha entendido a razão) a ouvir.

Ofereço, agora, então, o que resta: o silêncio, não como a melhor resposta, mas como ele é.

E só.”

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Publicado por Renato Alt


11 de jan de 2010

:: Maio ::

"14 de maio de 1854

Já se vão dias demais desde a última vez em que lhe escrevi. Perdão. Ainda que eu não tenha recebido novas a seu respeito, creio que foi apenas o quase incontornável problema dos mensageiros, mais uma vez; qualquer desculpa lhes serve para não vir até onde estou, ainda que, quando aqui estão, mostrem-se bastante interessados em meus propósitos. Dou-lhes sempre uma resposta vaga, não mentirosa, mas que revela apenas o que poderia ser dito em praça pública ou soprado aos quatro ventos.

Os dias arrastam-se, beirando o insuportável. Me acalenta a imagem que faço de você acomodada defronte a lareira, talvez tecendo, talvez apenas olhando com olhos vazios e intensos o crepitar do fogo. Gosto de pensar que nesses momentos estamos juntos, em pensamento, dado que é a sua imagem que me dá força para levantar dia após dia, nesta empreitada que dura há já tão mais do que jamais pretendi.

Entretanto, não escrevo para lamentar. A angústia da saudade alimenta minhas forças, aumenta-me a destreza nas mão, tornam macio o terreno a cava e as rochas, teimosas, que exigem dinamite para dar passagem. Que eu esteja conseguindo manter algum tipo de segredo a respeito do que faço já é, acredite, feito incrível.

Ouvi boatos de que Daniel estaria me procurando. Na última vez em que estive na cidade, tentando ser tão discreto como sempre, confidenciou-me o amigo do mercado que tivera a impressão de vê-lo no dia anterior. Confesso a você que me veio, sim, o sentimento de indignação, mas mais além a lembrança do real esforço que ele fez, e nesta lembrança decidi me agarrar, para incentivar esta tarefa, este trabalho de Sísifo que consome meus dias, meses e nervos. Ponho-me a pensar no que poderia ele querer, depois de tudo o que fez, e sendo mesmo ele, porque ainda não me procurou: nada justifica sua presença alia não ser a minha própria. Sim, sou inevitavelmente levado a pensar que ele poderia querer o que me trouxe aqui, mas imaginar traição tal me parece injusto mesmo com ele.

Imaginá-la confortável traz conforto também a mim. Mal penso o que podem estar dizendo a seu respeito, deixada logo após o casamento por um homem, para todos os efeitos, indigno e cruel. Mas me basta saber o que você pensa, e saber que em breve – sonho, mais do que breve – estaremos prontos para a vida que lhe prometi; não só a você, mas também a seus pais, que tanto foram obrigados a aceitar em função dos sonhos deste adolescente crescido que me tornei.

Aguardo ansioso uma resposta tua, apressando o término desta para que possa logo seguir caminho até tuas mãos.

Sempre seu,

R-"

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Publicado por Renato Alt

4 de jan de 2010

:: μέλισσα ::

Foram apenas alguns versos, se podem assim se chamar, que me vieram enquanto conversava com você, tarde da noite, separados por alguns bytes, discutindo a razão da existência e os desenhos animados, enquanto eu sorvia um tinto seco e você, em seu pijama zebrado (confissão extraída à fórceps), deixava-se embalar pela preguiça na resposta.

Em silêncio, algumas coisas eram ditas.

E sobrevieram pensamentos e possibilidades, que eu jamais ousaria pensar ou empreender, e horizontes descortinaram-se uns após os outros em uma imensa, indescritível, miríade de possibilidades e destinos, de encontros que apenas Dionisos, em sua arte, poderia conceber.

Tenho em meu rosto o sorriso sincero: uma esperança que mantém viva, apesar de todos os desamores e desamparos, apesar das cicatrizes mal curadas que se arrastam e aprisionam a alma, cortando-me as asas.

Mas me mostra, e eu vejo: um caminho nebuloso e convidativo, daqueles pelos quais se anda de mãos dadas.

Vamos?
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Publicado por Renato Alt

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PS: o Haloscan, sistema de comentários que adotei no Aperte, agora passou a ser cobrado e eu, claro, não vou pagar; enquanto não migro para outro sistema, estou impossibilitado de responder os comentários de vocês. Mas assim que isso estiver resolvido, respondo todos, ok?
Voltemos agora à nossa programação normal.