11 de jan de 2010

:: Maio ::

"14 de maio de 1854

Já se vão dias demais desde a última vez em que lhe escrevi. Perdão. Ainda que eu não tenha recebido novas a seu respeito, creio que foi apenas o quase incontornável problema dos mensageiros, mais uma vez; qualquer desculpa lhes serve para não vir até onde estou, ainda que, quando aqui estão, mostrem-se bastante interessados em meus propósitos. Dou-lhes sempre uma resposta vaga, não mentirosa, mas que revela apenas o que poderia ser dito em praça pública ou soprado aos quatro ventos.

Os dias arrastam-se, beirando o insuportável. Me acalenta a imagem que faço de você acomodada defronte a lareira, talvez tecendo, talvez apenas olhando com olhos vazios e intensos o crepitar do fogo. Gosto de pensar que nesses momentos estamos juntos, em pensamento, dado que é a sua imagem que me dá força para levantar dia após dia, nesta empreitada que dura há já tão mais do que jamais pretendi.

Entretanto, não escrevo para lamentar. A angústia da saudade alimenta minhas forças, aumenta-me a destreza nas mão, tornam macio o terreno a cava e as rochas, teimosas, que exigem dinamite para dar passagem. Que eu esteja conseguindo manter algum tipo de segredo a respeito do que faço já é, acredite, feito incrível.

Ouvi boatos de que Daniel estaria me procurando. Na última vez em que estive na cidade, tentando ser tão discreto como sempre, confidenciou-me o amigo do mercado que tivera a impressão de vê-lo no dia anterior. Confesso a você que me veio, sim, o sentimento de indignação, mas mais além a lembrança do real esforço que ele fez, e nesta lembrança decidi me agarrar, para incentivar esta tarefa, este trabalho de Sísifo que consome meus dias, meses e nervos. Ponho-me a pensar no que poderia ele querer, depois de tudo o que fez, e sendo mesmo ele, porque ainda não me procurou: nada justifica sua presença alia não ser a minha própria. Sim, sou inevitavelmente levado a pensar que ele poderia querer o que me trouxe aqui, mas imaginar traição tal me parece injusto mesmo com ele.

Imaginá-la confortável traz conforto também a mim. Mal penso o que podem estar dizendo a seu respeito, deixada logo após o casamento por um homem, para todos os efeitos, indigno e cruel. Mas me basta saber o que você pensa, e saber que em breve – sonho, mais do que breve – estaremos prontos para a vida que lhe prometi; não só a você, mas também a seus pais, que tanto foram obrigados a aceitar em função dos sonhos deste adolescente crescido que me tornei.

Aguardo ansioso uma resposta tua, apressando o término desta para que possa logo seguir caminho até tuas mãos.

Sempre seu,

R-"

...

Publicado por Renato Alt

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