25 de jan de 2010

:: Pardal ::

Ele segurou a capa do LP, e com a mão tirou a fina camada de poeira que o esquecimento depositara ali. Ainda havia o toca-discos, encostado há tempos num silêncio resignado, como se contando os dias até que enfim alguém lhe notasse a presença e lhe desse destino.

Foi com passos lentos, como se carregasse nos ombros o peso de toda uma vida, que ele aproximou-se do aparelho e levantou a tampa, que ergueu-se em um rangido de protesto.

Piaf. A música dos legionários.
Ele riu, um riso doído, engasgado, apunhalado pela ironia do momento.

Não era hora para alta definição, para surround, para home theater. Queria ouvir a agulha arrastando-se pelos sulcos, queria ouvir as caixas de som estalando e esforçando-se para fazer ouvir a voz da pequena e poderosa francesa, queria a força dela falando por ele através de uma intensidade que, ao ouvir, tranformava em lágrimas o furor e a frustração.

Non, Je Ne Regrette Rien.
Mentira.

Nunca antes quisera tanto acreditar em uma mentira. E afinal o que é a verdade, senão aquilo em que você resolve acreditar? Ele lhe oferecera amizade, oferecera a mão para ajudar a levantar, o ombro para quando fosse preciso chorar, a cumplicidade para risos perdidos; mas ela não os quis, não ouviu, não se permitu, ao menos, conhecer.

Non, Je Ne Regrette Rien.
Entre o chiado do disco e as falhas em sua voz, ele entoa a própria alma no seu fingimento de francês.

Ela, indiferente, sequer sabia que ele o fazia.

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Publicado por Renato Alt