22 de fev de 2010

:: Azoto ::

"Talvez seja apenas o sono", pensa ele, tentando dar nome à uma melancolia que desde cedo lhe acometia o coração, apertava-lhe a garganta e turvava os olhos, naquele dia que por pura peraltice resolvera trazer desde a manhã um tanto de nuvens carregadas, desfilando tons de cinza à frente de um sol tímido demais para se deixar ver.

Caminhou um pouco, sentindo a madeira reclamar sob seus pés, levando em uma das mãos a xícara fumegante de chá e na outra a empoeirada caixa de sapatos, que durante uma vida inteira permanecera intocada na segunda prateleira do armarinho do corredor.

Chegou à sala e viu que algumas gotas começavam a estourar na vidraça, avisando que a chuva enfim chegara, e que a calma da noite seria rompida volta e meia por clarões e estrondos. Pouca diferença fazia, é verdade, uma vez que nem sequer interessava ligar a TV: já sabia de cor o que estaria passando e, se porventura houvesse algo de novo, não lhe provocaria interesse; "talvez seja o sono."

Puxou a cadeira, percebeu o gato chegar com sua delicadeza e um leve ronronar: buscava sempre sua companhia quando chovia forte, ou oferecia a sua, não sabia bem. Pousou a caixa sobre a mesa, passou a mão na tampa removeu a fina camada de poeira. Sim, angustiava-lhe esse pequeno ritual, era quase um não-querer, mas seguia adiante sem convencer-se de qualquer porquê.

Suspirou enquanto removia a tampa, enquanto o gato lambia as patas dianteiras alheio a tudo ao redor, enquanto o ruído da chuva fazia pensar que, talvez, estivesse trazendo granizo, e o ruído sempre lhe fazia pensar naqueles anos já perdidos no tempo, quando juntava as pequeninas pedras nas mãos apenas para vê-as desfazendo-se com seu calor.

Tirou da caixa, enfim, o que procurava, e não pôde evitar a lágrima que caiu, fugidia, e lhe molhou o rosto em seu caminho apressado; não era exatamente tristeza, sabia, mas nada poderia estar mais longe da felicidade.

Talvez fosse apenas o sono.
Mas era hora.

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Publicado por Renato Alt

15 de fev de 2010

:: Estrofe ::

Preferia, sei lá, estar em um lugar onde ninguém me conhecesse e eu pudesse chegar contando qualquer história, apoiado pela dúvida, pela preguiça de outrem e pela confiança em que, de forma geral, pouco importa a vida do outro; e aí contar que fora astronauta, bombeiro, médico ou jogador de futebol, ou todas essas coisas que todo menino em algum momento sonhou ser; para quem me conhecesse a partir dali, desse marco zero, eu seria aquilo que quisesse parecer, contaria as histórias que quisessem ouvir, e encarnaria um personagem para qual fosse a ocasião.

Ou ainda, viveria isolado, longe da eletricidade e da água encanada, longe das embalagens e rótulos, longe do café sem cafeína, dos doces sem açúcar, do leite sem lactose. Estaria sozinho em um bosque ou floresta, imerso no ar puro e inebriante, no cheiro de mato molhado e de carvalho, tendo por passatempo adivinhar quais animais seriam aqueles a fazer serenata em altas horas da noite. Talvez tivesse um emprego trivial, como atendente em um bar de beira de estrada, e me tornasse invisível para a maioria e um mistério para alguns, ainda que desinteressante, porque têm mais o que fazer do que pensar quais seriam os caminhos que teriam levado aquele alguém sem rosto a continuar seus dias ali, sem encanto, sem propósito outro que não a simples sobrevivència.

Talvez fosse melhor mudar de nome, mudar de raça, repetir tantas vezes uma história de vida que em algum momento eu mesmo me convenceria de que é verdade, e vivendo nela talvez encontrasse algum significado que esta outra, imposta, não apresentou. Talvez fosse o caso de sumir, sem esperar redenção, sem esperar que alguém se importasse em procurar.

Mas, ao contrário, repito a rotina, acordando, alimentando-me, vestindo-me: um produto da sociedade, fadado a não ser além do que aquilo que ela própria propões; qual rebeldia resta além daquela do pensamento, ou qual subversão senão aquela desconhecida, desconfortável, que nos transforma em estranhos até para aqueles que conhecem nosso rosto como as palmas das próprias mãos.

Então respiro fundo, olhos no horizonte: o cinza há de, cedo ou tarde, dar lugar ao pôr-do-sol.

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Publicado por Renato Alt


8 de fev de 2010

:: Alva ::

Já me canso de dizer, assim como sei que você de me ouvir, mas enquanto os dias forem esses e as atitudes forem essas, não há nada no discurso que se possa mudar. Sei que você acha que o que digo é vazio, que são palavras que não carregam em si a dor da experiência, como se fosse essa reservada a alguns poucos eleitos. Nada, no entanto, poderia estar mais longe da verdade: o que sinto é antes a angústia do desconhecimento, e acredite, pode ser muito mais cruel do que a plena ciência do que acontece.

Não a julgo, visto que penso não haver viva alma que possa fazê-lo, já que ninguém é dono da verdade ou seu fiador; cabe a cada um seu quinhão, e não há mérito ou demérito em qualquer jornada; desde que, claro, seja percorrida com paixão, e não desdém; com vontade e não conformismo. Se os pensamentos divergem, ora, somos humanos, não? Ou, pelo menos, é nisto que ainda quero crer.

Seja como for, ainda que paus e pedras tenham saído de sua boca para me antingir, e, confesso, tenham logrado êxito (não tenho mais paciência para fingir-me indiferente), já não travam meus passos como fariam há alguns dias. Sim, dias. Mas agora, acredite, o momento é outro.

E, entre mim e o horizonte, você já não se interpõe.
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Publicado por Renato Alt

1 de fev de 2010

:: Véu ::

E então ela casou.

Lembrei-me do tempo em que estivemos perto, das coisas que falamos de perto, de alguns sonhos, de tantas possibilidades, de sonhos inalcançáveis. Falamos de medos e desejos, falamos de coisas que nunca viriam a existir senão em nossos devaneios, em nossos sonhos e vontades adolescentes que, pobres de nós, nenhum respaldo encontraram em qualquer nesga de realidade

Mas ela casou, e a vi vestida de branco, com o longo véu arrastando as pedrinhas que, cúmplices, tentavam acompanhá-la ao sentirem o tocar do tecido. Havia música, é claro, que em tantas vezes sonhei que tocariam também para mim, mas que silenciavam fundo ao final de cada nota; eu, sozinho, sentia o silêncio zombeteiro anunciando a quem quisesse ouvir mais esse revés; o nó do inconformismo, da dúvida, insolúvel no espírito.

Eu a vi, levada ao altar, enquanto, de uma mesa e imerso em calor e em pensamentos, pensava nos caminhos da vida e por que teria ela, em alguma traquinagem qualquer, escolhido me conduzir até ali.

E não foram as palavras a mim, mas foram as que nos disseram.

Até que a morte os separe.
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Publicado por Renato Alt