15 de fev de 2010

:: Estrofe ::

Preferia, sei lá, estar em um lugar onde ninguém me conhecesse e eu pudesse chegar contando qualquer história, apoiado pela dúvida, pela preguiça de outrem e pela confiança em que, de forma geral, pouco importa a vida do outro; e aí contar que fora astronauta, bombeiro, médico ou jogador de futebol, ou todas essas coisas que todo menino em algum momento sonhou ser; para quem me conhecesse a partir dali, desse marco zero, eu seria aquilo que quisesse parecer, contaria as histórias que quisessem ouvir, e encarnaria um personagem para qual fosse a ocasião.

Ou ainda, viveria isolado, longe da eletricidade e da água encanada, longe das embalagens e rótulos, longe do café sem cafeína, dos doces sem açúcar, do leite sem lactose. Estaria sozinho em um bosque ou floresta, imerso no ar puro e inebriante, no cheiro de mato molhado e de carvalho, tendo por passatempo adivinhar quais animais seriam aqueles a fazer serenata em altas horas da noite. Talvez tivesse um emprego trivial, como atendente em um bar de beira de estrada, e me tornasse invisível para a maioria e um mistério para alguns, ainda que desinteressante, porque têm mais o que fazer do que pensar quais seriam os caminhos que teriam levado aquele alguém sem rosto a continuar seus dias ali, sem encanto, sem propósito outro que não a simples sobrevivència.

Talvez fosse melhor mudar de nome, mudar de raça, repetir tantas vezes uma história de vida que em algum momento eu mesmo me convenceria de que é verdade, e vivendo nela talvez encontrasse algum significado que esta outra, imposta, não apresentou. Talvez fosse o caso de sumir, sem esperar redenção, sem esperar que alguém se importasse em procurar.

Mas, ao contrário, repito a rotina, acordando, alimentando-me, vestindo-me: um produto da sociedade, fadado a não ser além do que aquilo que ela própria propões; qual rebeldia resta além daquela do pensamento, ou qual subversão senão aquela desconhecida, desconfortável, que nos transforma em estranhos até para aqueles que conhecem nosso rosto como as palmas das próprias mãos.

Então respiro fundo, olhos no horizonte: o cinza há de, cedo ou tarde, dar lugar ao pôr-do-sol.

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Publicado por Renato Alt