1 de fev de 2010

:: Véu ::

E então ela casou.

Lembrei-me do tempo em que estivemos perto, das coisas que falamos de perto, de alguns sonhos, de tantas possibilidades, de sonhos inalcançáveis. Falamos de medos e desejos, falamos de coisas que nunca viriam a existir senão em nossos devaneios, em nossos sonhos e vontades adolescentes que, pobres de nós, nenhum respaldo encontraram em qualquer nesga de realidade

Mas ela casou, e a vi vestida de branco, com o longo véu arrastando as pedrinhas que, cúmplices, tentavam acompanhá-la ao sentirem o tocar do tecido. Havia música, é claro, que em tantas vezes sonhei que tocariam também para mim, mas que silenciavam fundo ao final de cada nota; eu, sozinho, sentia o silêncio zombeteiro anunciando a quem quisesse ouvir mais esse revés; o nó do inconformismo, da dúvida, insolúvel no espírito.

Eu a vi, levada ao altar, enquanto, de uma mesa e imerso em calor e em pensamentos, pensava nos caminhos da vida e por que teria ela, em alguma traquinagem qualquer, escolhido me conduzir até ali.

E não foram as palavras a mim, mas foram as que nos disseram.

Até que a morte os separe.
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Publicado por Renato Alt