29 de mar de 2010

:: Serenar ::

Vem, deita aqui ao meu lado, ainda que por apenas um pouco mais. A janela está fechada, e ainda que as gotas da chuva insistam tentando entrar, este momento é apenas de nós dois, e mais ninguém há no mundo.

Deita. O filme começou há já algum tempo, mas podemos sussurar no ouvido um do outro alguns palpites sobre o que aconteceu e podemos chegar a conclusões precipitadas sobre o que ainda vai acontecer. Podemos discordar só por implicância, pra depois algum de nós dizer que tinha razão e cobrar do outro seja o que for que inventar que merece.

Deita aqui, pois já servi o vinho, e se esse se atrever a lançar-se entre nós, reclamando lugar no lençol, deixe estar: há muito mais de onde vieram ambos, e logo a sobriedade vai desisitir de nos chamar à razão e deixar que nos entreguemos a qualquer devaneio que pareça interessante, a qualquer riso sem motivo que nos queira brotar no rosto.

Já não importa como seja a noite, pois quem a fará somos nós, enquanto deuses do nosso próprio tempo, senhores dos nossos sabores, até que algum sol, daqui a mais horas do que as que nos dão, resolva lembrar-nos de que há um mundo além do nosso ao qual, volta e meia, precisamos retornar.

E enfim, segura minha mão: boa noite.

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Publicado por Renato Alt

22 de mar de 2010

:: Vermelho ::

Ela passava as mãos pelos cabelos, lembrando que talvez fossem os dedos dele e deixava caírem sobre os ombros e braços num abraço solitário, num suspiro profundo e perfumado.

Via as pequenas marcas em seus braços, que fizera em momentos loucos, por conta própria, deslizando lâminas até que um fino filete de vida rubra escorresse até os cotovelos e levasse com ele uma parte da sua dor, disfarçada e sem nome, incoerente, talvez, mas que lhe trazia lágrimas suaves aos olhos, que cortavam-lhe também a face, perdendo-se no canto do sorriso indeciso que insistia em brotar nos lábios.

Era só mais um dia, dizia como num mantra, e só mais uma experiência; mais um motivo que inventava quando mais nada lhe vinha à mente. Prometia-se vezes sem fim que não mais faria aquilo, que havia outras formas, outras maneiras, mas via a solução - ou aquilo que entendia como tal - e, seduzida, entregava-se mais uma vez.

Ela passava as mãos pelos belos e deixava que caíssem sobre os ombros e os braços, num abraço solitário, dolorido e quente, marcado, que levava consigo uma miríade de noites sem fim.

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Publicado por Renato Alt

16 de mar de 2010

:: Maré ::

Via de longe, pouco antes de lançar âncora, as três praias que visitara há tempos. Poder-se-ia dizer que as três sâo, na verdade, uma, visto que apenas duas grandes pedras são responsáveis pelo que ele via como uma divisão. Entretanto, era assim que as queria ver: como opções, como inigualáveis, como únicas, ainda que banhadas pelo mesmo mar e dividindo a mesma areia.

Deixou cair a âncora, enquanto os elos da corrente reclamavam por serem tirados do seu repouso embalado pelo suave balanço rumo a um profundo mergulho na água gelada.

Ele permanecia na pequena embarcação, com a pele rachada pelo sol, pelo sal, pelos anos que passara entre um acoradouro e outro, com as mãos duras de quem puxara a rede muitas vezes, de quem arpoara muitas vezes, ainda que com o respeito pelo mar e pelos animais que o levava a agradecer a ambos, ritualisticamente, pela provisão que eram e que ofereciam-se para mantê-lo vivo por mais um dia ou dois. A camisa que vestia quando saiu do porto já há muito transformara-se em um pouco de tudo: atadura para as mãos, reforço para a corda, remendo para uma meia-dúzia de coisas que sequer lembrava quais eram. Sua bermuda já há muito estava áspera e quase inutilizável, a ponto de preferir ficar nu quando a certeza de estar sozinho era absoluta, quando sabia que quem o via eram apenas estrelas peraltas que talvez trocassem confidências entre si, mas sentia por elas o tipo de cumplicidade que apenas aqueles há muito vivendo longe de seus iguais é capaz de sentir.

Elas falavam com ele. E ele respondia, a cada uma, chamando-as pelo nome.

A praia do meio estava a poucas braçadas de distância, e sempre lembrava da história que ouvira (visto que não sabia ler) e que colocava em toda ilhota perdida um punhado de coqueiros: ali estavam também, e era um pequeno prazer para ele saber que os cocos apenas a si serviriam. Descobrira o lugar não por acaso, mas como um tipo de confidência passada por irmãos pescadores quando sentiam em um novo amigo o mesmo sangue que lhes corria nas veias.

Nesse final de dia, confiante, estava nu, e mergulhou tão logo colocara no lugar a escadinha que lhe permitiria subir novamente quando viesse a vontade, se viesse: não tinha pressa. Não havia niguém à sua espera, ou menos ninguém por quem valesse voltar, e por isso nadava com braçadas fortes e decididas, enquanto o mar azul como tinta lhe impulsionava as pernas, os ombros, o dorso, ansioso por levá-lo de novo àquelas areias tão conhecidas e tão novas para si.

Naquela noite, pensava, faria uma fogueira, e assaria algum peixe que aparecesse para tal: ali, não faltavam. Pegaria a gaita pela qual pagara um dia inteiro de pescaria, e sopraria até o último fôlego alguma canção para a lua, para alguém que nem mesmo ele sabia quem, e deixaria que o sono viesse como viesse e que a aurora o acordasse para, aí pensar no que fazer.

Mas até lá, havia um tanto de horas. E eram todas para si.

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Publicado por Renato Alt

8 de mar de 2010

:: Verano ::

Trazia nas lágrimas, não de tristeza, momentos que vivera antes que o sol aquecesse a tantos, antes que os dias se tornassem apenas o intervalo entre o despertar e o sonhar, quando resumiam em si algum valor e quando havia mais entre os vivos do que um cordial – quando isso – “bom dia”, dentro do elevador.

Sentava-se, agora, perto da janela, a que trazia, ainda, todas as tardes, o frescor do cheiro do mato que permanecia intocado há tempos, que ela preservava como se parte fosse - e de certa forma o era - de sua própria essência. Escolhera estar como estava, com a tez, a cor, o frescor de vinte e poucos anos, de uma artista perdida entre cores, flores e sons, com a história que lhe apeteceu contar, afastada naquela chácara para onde a preguiça impede que cheguem curiosos, olhos demais, câmeras demais, perguntas demais: queria a vida como sempre a tivera: simples, serena. Já não questionavam quem era, jovem na flor da idade, a passar os dias perdida sabiam lá no quê.

Mas ela sabia. E lembrava.

Lembrava dos acordes que traziam a manhã e que acordavam o sol na aurora do tempo; lembrava de quando chegavam os andarilhos das pradarias esquecidas, de quando chegavam os gigantes das torres do sul, de quando a terra abria seu ventre e entregava à luz do dia aqueles que os passavam na escuridão. Lembrava de quando a melodia das liras trazia as entidades do ar, que cercavam aqueles que acabavam de acomodar-se com uma brisa suave; lembrava de quando seres impossíveis de descrever paravam para cumprimentá-la, reverentes.

Lembrava de tempos que foram. Que jamais foram. Que nunca serão. E guarda-os com a certeza que os anos lhe deram.

Sabe bem quantos são.

E resume-os. todos, naquela lágrima fugidia.

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Publicado por Renato Alt

1 de mar de 2010

:: Bruma ::

Ela passava em frente à casa todos os dias, quando voltava da escola. Chegava no imenso portão verde, segurava as barras com mãos ansiosas, enquanto olhava o caminho que levava até a imponente porta de madeira. Via, no segundo andar, a infinidade de janelas, via a varanda que se estendia por sobre duas colunas que, ela não sabia, buscaram inspiração no Parthenon. Olhava ansiosa o jardim tão bem cuidado e imaginava-se correndo por ali, no meio daquelas tantas borboletas que pareciam voar apenas para exibir suas cores.

E perdia-se, então, entre o tempo e suas vontades.

No final de uma eternidade, caminhava em passos rápidos, deixando que os pequenos saltos estalassem de encontro ao chão, enquanto o sol fugidio começava a esconder-se por detrãs dos montes que contornavam a pequena cidade.

Chegava em casa e largava-se na cama, pensando nos segredos que os muros daquela casa poderia esconder; fantasiava sobre mundos e formas, cores e cheiros, enquanto perguntava a si mesma quem moraria ali, que nunca dera as caras, nunca mostrara-se a ninguém. Sim, havia questionado umas tantas pessoas - dentro do que lhe permitia sua mente infantil - e pouca importância dava àqueles que tentavam lhe dizer que nada havia demais no lugar, que era apenas o reduto de uma velha viúva que perdera o gosto pelos dias, e pelo sol, ou ainda pelas nuvens e pela lua, e que passava o tempo que lhe restava olhando para o nada, através de cortinas empoieradas e entediadas, que sequer recordavam da última vez em que se viram obrigadas a mover-se.

Mas então houve o dia, enfim chegara, em que ela parou à frente do portão, e a senhora que há tanto a observava - sem que ela soubesse - desceu até a porta, roubando-lhe o ar e a força das pernas; se pudesse, ainda que não quisesse, teria corrido dali mais rápido do que pensava ser posssível. Mas a senhora, em seus passos sem idade, aproximara-se do portão que, resignado em seu rangido, abriu-se para lhe deixar passar.

E ela, pé ante pé, sem medo ou questionamentos, deixou-se entrar, rumo ao encontro das borboletas que, à sua volta, lhe recebiam em festa.

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Publicado por Renato Alt