1 de mar de 2010

:: Bruma ::

Ela passava em frente à casa todos os dias, quando voltava da escola. Chegava no imenso portão verde, segurava as barras com mãos ansiosas, enquanto olhava o caminho que levava até a imponente porta de madeira. Via, no segundo andar, a infinidade de janelas, via a varanda que se estendia por sobre duas colunas que, ela não sabia, buscaram inspiração no Parthenon. Olhava ansiosa o jardim tão bem cuidado e imaginava-se correndo por ali, no meio daquelas tantas borboletas que pareciam voar apenas para exibir suas cores.

E perdia-se, então, entre o tempo e suas vontades.

No final de uma eternidade, caminhava em passos rápidos, deixando que os pequenos saltos estalassem de encontro ao chão, enquanto o sol fugidio começava a esconder-se por detrãs dos montes que contornavam a pequena cidade.

Chegava em casa e largava-se na cama, pensando nos segredos que os muros daquela casa poderia esconder; fantasiava sobre mundos e formas, cores e cheiros, enquanto perguntava a si mesma quem moraria ali, que nunca dera as caras, nunca mostrara-se a ninguém. Sim, havia questionado umas tantas pessoas - dentro do que lhe permitia sua mente infantil - e pouca importância dava àqueles que tentavam lhe dizer que nada havia demais no lugar, que era apenas o reduto de uma velha viúva que perdera o gosto pelos dias, e pelo sol, ou ainda pelas nuvens e pela lua, e que passava o tempo que lhe restava olhando para o nada, através de cortinas empoieradas e entediadas, que sequer recordavam da última vez em que se viram obrigadas a mover-se.

Mas então houve o dia, enfim chegara, em que ela parou à frente do portão, e a senhora que há tanto a observava - sem que ela soubesse - desceu até a porta, roubando-lhe o ar e a força das pernas; se pudesse, ainda que não quisesse, teria corrido dali mais rápido do que pensava ser posssível. Mas a senhora, em seus passos sem idade, aproximara-se do portão que, resignado em seu rangido, abriu-se para lhe deixar passar.

E ela, pé ante pé, sem medo ou questionamentos, deixou-se entrar, rumo ao encontro das borboletas que, à sua volta, lhe recebiam em festa.

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Publicado por Renato Alt