5 de abr de 2010

:: Hemolacria ::

Quisera por um segundo apenas; aquele intocado, imaculado, perfeito. Aquele segundo em que nada mais importaria, quando os sentimentos seriam plenos, puros, desprovidos de quaisquer interesses outros e de quaisquer preocupações mundanas.

Pensava que viria trazendo a leveza de uma amizade sincera, de alguém capaz de fazer pelo outro aquilo ao que ele mesmos e dispunha, mas ah! Quanta distância se guarda da realidade, como é cruel o mundo que é o mundo e no qual, queiramos ou não, estamos condenados a passar esta nossa brevidade de dias.

Sonhava que viria aquela que por si apenas ansiaria, que chamaria pelo seu nome sem olhar de soslaio, sem ponderar, ainda que ao seu lado, possibilidades outras, pensamentos outros, "e se" outros que não aquele dos dois, que envolvesse aos dois, que trouxesse aos dois mais em comum do que já mostravam, do que já ansiavam, do que já entregaram um ao outro

Divagava sozinho escutando a chuva que descia como injúria divina, disposta a lavar do firmamento todas as estrelas e do chão toda criatura; quisera que lavasse a si mesmo, arrancando do profundo da sua amargura aqueles sentimentos mesquinhos aos quais se apegara, por não haver outros para lhes tomarem o lugar, porque sem eles estaria órfão, perdido, renascido.

Quisera um mundo novo, um nome novo, o qual ninguém conheceria e jamais daria a conhecer, através do qual pudesse singrar os mares e escalar montanhas, desprovido de nada além de si mesmo; e ansiava por esse momento como quem anseia por, enfim, conhecer a si mesmo.E pensava, assustado, se seria possível ambição como essa.

Ainda que apenas por um segundo.

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Publicado por Renato Alt