16 de mar de 2010

:: Maré ::

Via de longe, pouco antes de lançar âncora, as três praias que visitara há tempos. Poder-se-ia dizer que as três sâo, na verdade, uma, visto que apenas duas grandes pedras são responsáveis pelo que ele via como uma divisão. Entretanto, era assim que as queria ver: como opções, como inigualáveis, como únicas, ainda que banhadas pelo mesmo mar e dividindo a mesma areia.

Deixou cair a âncora, enquanto os elos da corrente reclamavam por serem tirados do seu repouso embalado pelo suave balanço rumo a um profundo mergulho na água gelada.

Ele permanecia na pequena embarcação, com a pele rachada pelo sol, pelo sal, pelos anos que passara entre um acoradouro e outro, com as mãos duras de quem puxara a rede muitas vezes, de quem arpoara muitas vezes, ainda que com o respeito pelo mar e pelos animais que o levava a agradecer a ambos, ritualisticamente, pela provisão que eram e que ofereciam-se para mantê-lo vivo por mais um dia ou dois. A camisa que vestia quando saiu do porto já há muito transformara-se em um pouco de tudo: atadura para as mãos, reforço para a corda, remendo para uma meia-dúzia de coisas que sequer lembrava quais eram. Sua bermuda já há muito estava áspera e quase inutilizável, a ponto de preferir ficar nu quando a certeza de estar sozinho era absoluta, quando sabia que quem o via eram apenas estrelas peraltas que talvez trocassem confidências entre si, mas sentia por elas o tipo de cumplicidade que apenas aqueles há muito vivendo longe de seus iguais é capaz de sentir.

Elas falavam com ele. E ele respondia, a cada uma, chamando-as pelo nome.

A praia do meio estava a poucas braçadas de distância, e sempre lembrava da história que ouvira (visto que não sabia ler) e que colocava em toda ilhota perdida um punhado de coqueiros: ali estavam também, e era um pequeno prazer para ele saber que os cocos apenas a si serviriam. Descobrira o lugar não por acaso, mas como um tipo de confidência passada por irmãos pescadores quando sentiam em um novo amigo o mesmo sangue que lhes corria nas veias.

Nesse final de dia, confiante, estava nu, e mergulhou tão logo colocara no lugar a escadinha que lhe permitiria subir novamente quando viesse a vontade, se viesse: não tinha pressa. Não havia niguém à sua espera, ou menos ninguém por quem valesse voltar, e por isso nadava com braçadas fortes e decididas, enquanto o mar azul como tinta lhe impulsionava as pernas, os ombros, o dorso, ansioso por levá-lo de novo àquelas areias tão conhecidas e tão novas para si.

Naquela noite, pensava, faria uma fogueira, e assaria algum peixe que aparecesse para tal: ali, não faltavam. Pegaria a gaita pela qual pagara um dia inteiro de pescaria, e sopraria até o último fôlego alguma canção para a lua, para alguém que nem mesmo ele sabia quem, e deixaria que o sono viesse como viesse e que a aurora o acordasse para, aí pensar no que fazer.

Mas até lá, havia um tanto de horas. E eram todas para si.

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Publicado por Renato Alt