8 de mar de 2010

:: Verano ::

Trazia nas lágrimas, não de tristeza, momentos que vivera antes que o sol aquecesse a tantos, antes que os dias se tornassem apenas o intervalo entre o despertar e o sonhar, quando resumiam em si algum valor e quando havia mais entre os vivos do que um cordial – quando isso – “bom dia”, dentro do elevador.

Sentava-se, agora, perto da janela, a que trazia, ainda, todas as tardes, o frescor do cheiro do mato que permanecia intocado há tempos, que ela preservava como se parte fosse - e de certa forma o era - de sua própria essência. Escolhera estar como estava, com a tez, a cor, o frescor de vinte e poucos anos, de uma artista perdida entre cores, flores e sons, com a história que lhe apeteceu contar, afastada naquela chácara para onde a preguiça impede que cheguem curiosos, olhos demais, câmeras demais, perguntas demais: queria a vida como sempre a tivera: simples, serena. Já não questionavam quem era, jovem na flor da idade, a passar os dias perdida sabiam lá no quê.

Mas ela sabia. E lembrava.

Lembrava dos acordes que traziam a manhã e que acordavam o sol na aurora do tempo; lembrava de quando chegavam os andarilhos das pradarias esquecidas, de quando chegavam os gigantes das torres do sul, de quando a terra abria seu ventre e entregava à luz do dia aqueles que os passavam na escuridão. Lembrava de quando a melodia das liras trazia as entidades do ar, que cercavam aqueles que acabavam de acomodar-se com uma brisa suave; lembrava de quando seres impossíveis de descrever paravam para cumprimentá-la, reverentes.

Lembrava de tempos que foram. Que jamais foram. Que nunca serão. E guarda-os com a certeza que os anos lhe deram.

Sabe bem quantos são.

E resume-os. todos, naquela lágrima fugidia.

...

Publicado por Renato Alt