21 de abr de 2010

:: Ecos ::

Acordo em um quarto branco. Não há janelas ou portas. Visto uma roupa branca, de peça única, e tenho os braços estendidos ao longo do corpo. Estou afundado em um tapete que ocupa todo o recinto; felpudo, alto, atrapalha minha visão do que há ao redor. Minhas mãos tocam minhas pernas, mas apenas o sei: não sinto.

Na verdade, nada sinto.

Percebo, então, que nenhum pensamento me ocorre. Nenhum lúcido, ao menos. Forço-me a pensar, a tentar entender, e o que me vêm são apenas os olho dela, em intensa escuridão, ébrios como os meus, em frente a um portão perdido na madrugada do Rio.

Sento-me.
Tento pensar no que fiz. Lembrar do que fiz. Lembro dela, só, e isso me é suficiente: sinto-me pleno.

No teto, um ventilador gira esforçado, incapaz de gerar qualquer vento, estalando em um ruído monótono, indiferente.

Tenho a garganta seca.

No canto do quarto há uma taça virada, e o vinho que nela havia ainda alastra-se como criatura viva por todo o recinto. Aos poucos, paciente, vai mudando todo o cenário, tornando-o rubro.

Dói-me o pescoço. Tento colocar-me de pé, mas as pernas não me obedecem. Toco meu rosto, e pareço diferente: olhos, sobrancelhas, boca; nada é meu. Entrego-me, como já antes o fizera, aos cuidados da lembrança que tenho, à lembrança dela, ainda que fugidia, sorrateira. São dela meus pensamentos, que perdem-se na longuidão dos seus cabelos negros, que me envolvem e roubam-me a sanidade.

Já não há sanidade.

Deito-me de novo, sob o ar abafado, enevoado e perfumado: conheço o cheiro. Leva-me ao Hyde Park, leva-me à Camden. Fala-me, talvez, de Victoria Secret´s. Sorrio e deixo-me envolver, submergir.

Se é sonho, enfim, escolho não acordar: este, não há quem me possa roubar.

...

Publicado por Renato Alt

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