13 de abr de 2010

:: Branco ::

Passou-se, então, longo tempo até que um dos dois tivesse a coragem de quebrar o silêncio. Porque o que houve antes, claro, não foi uma conversa: apenas uma ou outra observação a respeito da temperatura, algum comentário sobre uma tragédia recente, risos esporádicos quando lembraram, ao mesmo tempo, da colocação engraçada que um amigo, famoso pela presença de espírito, fez em dado momento.

Então veio o silêncio.

E nele notaram que já não eram mais tão jovens quanto suas lembranças insinuavam, que havia nos rostos, um do outro, a denúncia de um tanto de experiências, de dissabores, de tentativas frustradas e de sucessos inesperados. Ele notou as mãos dela descansando nervosas sobre o tecido azulado do vestido – ela sempre ficara bem de azul – e a respiração levemente ofegante, como naquele dia perdido ao que parecia uma vida inteira atrás, em que trocaram um primeiro e desajeitado beijo. Ela percebia a luta que ele travava consigo mesmo, tentando aparentar calma, e lia sua insegurança em cada gracejo que fazia; o flerte, talvez, como se nunca antes se tivessem visto, tocado, acariciado.

Não é que não houvesse o que dizer.
Havia demais.

Passou-se longo tempo até que um dos dois tivesse a coragem de quebrar o silêncio. Uma vez lançada a primeira palavra, como há tanto já afirma o provérbio, não haveria volta. E nem o queriam. Não agora, não mais, quando enfim colocaram-se frente a frente.

Um consentimento, com o olhar.
E, como antes, começou.


...

Publicado por Renato Alt

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