24 de mai de 2010

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E então, finalmente, deixou de resistir. Já não valia de nada, de qualquer forma. Todo esforço era em vão, qualquer movimento se perdia, suas caminhadas já não pareciam levar a lugar algum, suas palavras não quebravam o silêncio, sua voz não se fazia ouvir.

Então simplesmente deixou de resistir.

Não por ele. Não por ele.

Ao invés disso, tomou para si o que podia: os sorrisos roubados quando, eventualmente, os olhares se cruzavam e ele, faminto, buscava neles qualquer cumplicidade, qualquer brilho ou qualquer nuance que, ainda que por apenas uma fração de segundo, tornasse-os cúmplices em alguma realidade que pudesse existir.

Era assim como era; estavam um corredor de distância um do outro, ou talvez uma cidade, ou talvez um oceano, ou talvez um continente. Ou, talvez, algo que não soubesse dizer e que, ainda que soubesse, não diria: é esse o fardo do eterno medo de perder algo que nem sequer sabe dizer se tem.


Assim, deixara de resistir, colocando-se, contemplativo, diante dos dias, alimentando-se de perfume e risadas: esses, ninguém lhe poderia roubar.


E esperava, com a esperança que só os apaixonados são capazes de entender: afinal, quem sabe, o dia poderia vir.

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Publicado por Renato Alt

10 de mai de 2010

:: Nótula ::

Já não parece faltar muito.

Ele está na água morna, mantendo apenas o rosto para fora.
Pensamentos vem e vão, já não tão lúcidos agora.

Há o rosto dela, e os cabelos negros que escorrem por cima dos ombros e alcançam os seios. Há a pele morena, há o sorriso que apaga toda a realidade ao redor, há o perfume que sentiu uma vez, quase por um acaso, e que desde então entranhara-se em sua memória e ali se mantém, indelével.

Ele afunda a cabeça na água, expira, vê as bolhas, em sua curta vida, rumando apressadas para o alto, para então perderem-se para sempre no ar. Sente, aos poucos, que a água esfria, assim como esfria ele próprio. Mas não importa se fogem as horas, o dia, a razão; entrega-se pleno ao sentimento ainda não correspondido, enxergando criaturas feitas de sombra, inventadas pelas chamas bruxuleantes das velas, que dançam, silenciosas, uma valsa qualquer.

A qualquer momento, então.

Sorri sozinho, ouvindo uma ária de Maria Callas, e o barulho da água quando se mexe. Já não há lógica, motivos ou mesmo razão para apegar-se a qualquer um dos dois. Sente-se esvair, liberto de si mesmo, pleno. Está sonolento, sim, relaxado. Sente a mente divagar sem direção, e obriga-se a despertar novamente quando toda a realidade parece distante.

A imagem dela continua forte, soberana, inabalável. É ela, e é como a quer, ainda que fazê-la acreditar pareça tão difícil: é o mundo que é como é, quando ninguém mostra o rosto e muito menos o que guarda no peito.

Chega a hora, então.
E, sem perceber, adormece, restando apenas a escuridão morna e acolhedora.

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Publicado por Renato Alt

2 de mai de 2010

:: Metanoia ::

Mantinha-se calado, e por isso pensavam dele os pensamentos mais improváveis, mais incorretos;concluíam, e confabulavam, e teciam suas teorias conspiratórias, tão impossíveis como são talvez todas elas, e maldiziam-no e repetiam versões próprias de sua identidade, ao brados, para quem os quisesse ouvir.

E ele estava onde sempre esteve, e ouvia de longe o que diziam, e cansara-se de tentar pronunciar-se: quando o fizera, pouca importância deram ao que tinha a dizer, preferindo antes suas próprias matérias, preferindo antes o conforto que lhes proporcionava imaginar que as coisas talvez fossem como imaginavam e, assim, seguiam sentindo-se mais fortes e melhores do que ele, ainda que dele pouco houvesse o que de fato soubessem.

Assim, ele chegava, e olhava para todos, e às vezes dizia um "bom dia" ou qualquer outra palavra cuidadosamente escolhida, cuidadosamente pensada para que soasse o mais inócua possível, mas ainda assim entendiam nela qualquer coisa que não um "bom dia", e voltavam para suas tagarelices, que duravam horas sem fim, e para suas risadas inoportunas e joguinhos próprios, para aquela realidade que tanta semelhança encontrava na imagem do cão que caça o próprio rabo.

Até que, enfim, ele desistira, e acusado foi quando perceberam que o fizera, mas já não importava mais: mantinha-se quieto e distante, e talvez, sim, agora talvez arredio e pouco propenso a permitir que alguém se aproximasse, ainda que não houvesse, por enquanto, quem o tentasse.

Passavam os dias e ele sabia que, em breve, quereriam que lhes falasse, e que com eles rissem seus risos falsos e sem vontade, e que com eles fosse aonde quer que fossem, já que nunca diziam. Mas sabia bem por que o fariam; mas o tempo, então, já haveria passado; pois já agora não mais o há.

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Publicado por Renato Alt