24 de mai de 2010

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E então, finalmente, deixou de resistir. Já não valia de nada, de qualquer forma. Todo esforço era em vão, qualquer movimento se perdia, suas caminhadas já não pareciam levar a lugar algum, suas palavras não quebravam o silêncio, sua voz não se fazia ouvir.

Então simplesmente deixou de resistir.

Não por ele. Não por ele.

Ao invés disso, tomou para si o que podia: os sorrisos roubados quando, eventualmente, os olhares se cruzavam e ele, faminto, buscava neles qualquer cumplicidade, qualquer brilho ou qualquer nuance que, ainda que por apenas uma fração de segundo, tornasse-os cúmplices em alguma realidade que pudesse existir.

Era assim como era; estavam um corredor de distância um do outro, ou talvez uma cidade, ou talvez um oceano, ou talvez um continente. Ou, talvez, algo que não soubesse dizer e que, ainda que soubesse, não diria: é esse o fardo do eterno medo de perder algo que nem sequer sabe dizer se tem.


Assim, deixara de resistir, colocando-se, contemplativo, diante dos dias, alimentando-se de perfume e risadas: esses, ninguém lhe poderia roubar.


E esperava, com a esperança que só os apaixonados são capazes de entender: afinal, quem sabe, o dia poderia vir.

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Publicado por Renato Alt

Um comentário:

umacertagarota disse...

Ainda bem que esse texto ficou, leio ele todos os dias. é sério!