2 de mai de 2010

:: Metanoia ::

Mantinha-se calado, e por isso pensavam dele os pensamentos mais improváveis, mais incorretos;concluíam, e confabulavam, e teciam suas teorias conspiratórias, tão impossíveis como são talvez todas elas, e maldiziam-no e repetiam versões próprias de sua identidade, ao brados, para quem os quisesse ouvir.

E ele estava onde sempre esteve, e ouvia de longe o que diziam, e cansara-se de tentar pronunciar-se: quando o fizera, pouca importância deram ao que tinha a dizer, preferindo antes suas próprias matérias, preferindo antes o conforto que lhes proporcionava imaginar que as coisas talvez fossem como imaginavam e, assim, seguiam sentindo-se mais fortes e melhores do que ele, ainda que dele pouco houvesse o que de fato soubessem.

Assim, ele chegava, e olhava para todos, e às vezes dizia um "bom dia" ou qualquer outra palavra cuidadosamente escolhida, cuidadosamente pensada para que soasse o mais inócua possível, mas ainda assim entendiam nela qualquer coisa que não um "bom dia", e voltavam para suas tagarelices, que duravam horas sem fim, e para suas risadas inoportunas e joguinhos próprios, para aquela realidade que tanta semelhança encontrava na imagem do cão que caça o próprio rabo.

Até que, enfim, ele desistira, e acusado foi quando perceberam que o fizera, mas já não importava mais: mantinha-se quieto e distante, e talvez, sim, agora talvez arredio e pouco propenso a permitir que alguém se aproximasse, ainda que não houvesse, por enquanto, quem o tentasse.

Passavam os dias e ele sabia que, em breve, quereriam que lhes falasse, e que com eles rissem seus risos falsos e sem vontade, e que com eles fosse aonde quer que fossem, já que nunca diziam. Mas sabia bem por que o fariam; mas o tempo, então, já haveria passado; pois já agora não mais o há.

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Publicado por Renato Alt




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