10 de mai de 2010

:: Nótula ::

Já não parece faltar muito.

Ele está na água morna, mantendo apenas o rosto para fora.
Pensamentos vem e vão, já não tão lúcidos agora.

Há o rosto dela, e os cabelos negros que escorrem por cima dos ombros e alcançam os seios. Há a pele morena, há o sorriso que apaga toda a realidade ao redor, há o perfume que sentiu uma vez, quase por um acaso, e que desde então entranhara-se em sua memória e ali se mantém, indelével.

Ele afunda a cabeça na água, expira, vê as bolhas, em sua curta vida, rumando apressadas para o alto, para então perderem-se para sempre no ar. Sente, aos poucos, que a água esfria, assim como esfria ele próprio. Mas não importa se fogem as horas, o dia, a razão; entrega-se pleno ao sentimento ainda não correspondido, enxergando criaturas feitas de sombra, inventadas pelas chamas bruxuleantes das velas, que dançam, silenciosas, uma valsa qualquer.

A qualquer momento, então.

Sorri sozinho, ouvindo uma ária de Maria Callas, e o barulho da água quando se mexe. Já não há lógica, motivos ou mesmo razão para apegar-se a qualquer um dos dois. Sente-se esvair, liberto de si mesmo, pleno. Está sonolento, sim, relaxado. Sente a mente divagar sem direção, e obriga-se a despertar novamente quando toda a realidade parece distante.

A imagem dela continua forte, soberana, inabalável. É ela, e é como a quer, ainda que fazê-la acreditar pareça tão difícil: é o mundo que é como é, quando ninguém mostra o rosto e muito menos o que guarda no peito.

Chega a hora, então.
E, sem perceber, adormece, restando apenas a escuridão morna e acolhedora.

...
Publicado por Renato Alt

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