26 de jun de 2010

:: Una ::

O que foi, então?


Perguntou a si mesmo enquanto olhava para o espelho e via marcas que não conhecia, apresentado-se uma a uma: indefinidas, confusas, tentando acomodar-se uma ao lado da outra.

Talvez fosse um suspiro. Um hiato da realidade. Uma simples, voluntária, cegueira.

Ainda assim o levava de um dia para o outro. Ela. Ela que carregava consigo alguns tantos sentidos que faltavam a ele, estando seus próprios entorpecidos desde a primeira vez em que a viu.

O que foi, então?

Lavou o rosto e sentou-se, o quarto às escuras. Dormira ouvindo músicas, e estas ainda se faziam ouvir: agora, começava uma balada qualquer na voz de
Timmy Thomas. Talvez os dias que passaram estivessem encobertos, escondidos por detrás de esperanças que costurou de apanhados daqui e dali, que remendara com alguns sorrisos furtivos e palavras macias.


O que há, então?

Nada.
Só o nada.
De novo.

...
Publicado por Renato Alt


17 de jun de 2010

:: Piacevole ::

Sim, é verdade, é por todo o dia. Acordado, adormecido, ou em qualquer momento entre os dois: ela acompanhava-o em sua lucidez, tomando-lhe a razão, e apresentava-se, sorridente e ansiosa, em seus sonhos, deixando-o perder-se em sua infinidade indescritível.

Ali ela vinha inteira, plena. Procurava-o com o sorriso e os braços abertos, recebia-o com um abraço longo, demorado, deixando sentir os contornos do seu corpo, seu calor, a respiração profunda que só quem se permite conhecer é capaz de alcançar. Ele sentia seu rosto, e o pescoço, e o perfume dos cabelos, escuros como a noite onde estão. Sentia os lábios dela tocarem sua pele, sentia os dentes mordiscarem, sentia a pulsação quente que, pouco a pouco, acompanhava a sua, acelerada, apressada. Esperava com os olhos fechados qualquer movimento que se apresentasse, completamente entregue; era quando havia o beijo, e era tanto e tão intenso que lhe disparava os sentidos, e quase o desfazia em um desejo doído, e então existia apenas porque ela o segurava junto a si.

Era o momento que tinha: etéreo, eterno, até que o sol sobre seu rosto lhe anunciasse a manhã; e ainda que não estivesse lá, ele a cumprimentava com um suspiro, na esperança que ela lhe ouvisse ainda antes de encontrá-la, próxima e distante, como sempre, todos os dias.

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Publicado por Renato Alt