23 de ago de 2010

:: Ampiezza ::

Cheguei àquela porta quando ninguém mais pensava que chegaria; quando ninguém mais falava em mim, quando ninguém mais julgava-me vivo, ou consciente, ou capaz.

Não sei dizer, confesso, o quão consciente estou, mas eis-me aqui e, diante de mim, ela, a porta, se impõe soberana, silenciosa, resoluta, pouco disposta ao diálogo e menos ainda a deixar-se abrir.

Conheço bem o caminho que me trouxe até aqui. Lembro bem de como disseram que esta estrada não era minha, que não me cabia ousar qualquer passo sobre ela, que o destino, o futuro pasteurizado, era o que restava para mim, como para tantos, até que meus dias terminassem, e viesse outro que me tomaria os propósitos, provando-me descartável, uma memória dispensável para que a de um compromisso qualquer pudesse ocupar-lhe o lugar.

Mas estou aqui. Já não me importam aqueles, como você, que deixaram-me seguir sozinho. Houve o tempo da amizade, dos risos e descompromissos, das noites e emoções aleatórias, até que lhes fizessem pensar que não há responsabilidade fora das tributáveis, fora daquelas que os levam a discutir assuntos sobre os quais não têm qualquer ingerência, mas que tomam para si e que vomitam em forma de palavras difícieis e decibéis demais, para alardear o quão integrados estão à nossa realidade e ao engajamento social.

Simplesmente achei que não poderia ser só isso.

Daí a procura. Deleito-me na obsessão por algo mais, na obsessão por não aceitar o conformismo, na obsessão por imaginar que há mais do que um happy hour parco ao final do dia, entre sorrisos que não quero dar e cumprimentos que não quero receber.

Busquei, busco, e com isso sei o que deixei para trás: sei para onde não voltar.

Diante de mim permanece ela, a porta, irredutível, desafiando-me a descobrir o que esconde atrás de si; a resposta para aquilo que anseio, talvez. Ou, ainda, a agonia da perseverança.

Abraço ambas.

O caminho, ou parte dele, foi vencido, e daqui não há mais volta.
Abro, então, a porta, e deixo-me tragar pelo mistério além dela.

...
Publicado por Renato Alt

:: Areia ::

Mas que importa se me roubas o sono?
É acordado que sonho contigo...


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Publicado por Renato Alt, originalmente em 26/07/2006

18 de ago de 2010

:: All'ottava ::

E então entendi que a questão é que vivo apaixonado, e que assim me cabe estar.

Apaixonado por apaixonar-me, por conhecer e descobrir, por desvendar os meandros que a levam para além da própria razão, que a levam para além do segundo de reticências que permeia suas palavras mais ousadas. Apaixono-me por vê-la revelar-se, tímida e ousada, usando das expressões que a fazem corar, pensando em coisas que não imagina pensar; mas que pensa, e que deixa conduzirem seus dedos por seu corpo, por seus pudores, até que alcancem as teclas das quais, como eu, você dispõe. Mas sua propriedade e furor as transformam,letra por letra, e assim me contam eles, os dedos, por onde andaram, o que viram, o que fizeram e o que não querem que eu saiba jamais! Apaixono-me por ver abandonar-se em si mesma, entregar-se sem reservas, sem máscaras, sem termos corretos. Apaixono-me por vê-la despudorada e provocante, cruel, jogando comigo ainda que saiba que já é, de antemão, a vencedora. Apaixono-me por sequer querer ganhar: vencido, venço.

Apaixono-me por imaginar onde você está, e no que pensa. Apaixono-me por pensar em que seus lábios agora tocam: se outra porção do almoço, se a suavidade de mais um gole de vinho, se a caneta que lhe acompanha a criatividade; invejo-a quando está entre suas mãos, quando passeia e brinca entre elas, quando lhe chega à boca e arranca suspiros.

Faz isso sempre. Eu sei.

Apaixono-me por estar à sua espera no final do dia, por não precisar dizer se foi o meu cansativo ou não, porque, afinal, você virá: e visto o seu sorriso, experimentado o seu cheiro, sentido seu toque, já nada mais há que me importe.

Então eu a ouço, e seja dividindo os acontecimentos ou repartindo qualquer eventualidade, me faço parceiro e percebo, de novo, porque é que me você me completa, e pergunto-me por que é que escolheu a mim.

E então entendo que a questão, sobre qualquer questão, é você.

Enquanto a mim cabe apenas, rendindo, apaixonar-me outra vez.

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Publicado por Renato Alt