14 de set de 2010

:: Hiálito ::

Não era ele.

Ele nada fizera.
Mas contaram onde esteve e onde não, e com quem falou, e com quem riu, e de quem discordou. Contaram de como chegara e de como se fizera anunciar, de como olhou para quem olhou e ainda sobre seus possíves porquês. Contaram alguma indiscrição que jamais fizera, um movimento que jamais intentara, e comentaram, desenfreados, empurrados pela ebriedade e por arremedos de emoção, sobre as ousadias e investidas que jamais empreitara.

Ele nada dissera.
Mas disseram dele, do quanto falara a respeito de uns e de outros que nunca viera a conhecer, e formaram, para ele, e emitiram, como dele, opiniões que nunca tivera. Atribuiram-lhe palavras e citações que nunca proferira, usaram como ilustrações pensamentos que nunca exprimira, e riram e soluçaram, e concordaram e discordaram e ponderaram e repensaram e observaram e treplicaram e expuseram e afirmaram sobre suas considerações, veemente, verborragicamente.

Ele nada moveu.
Mas jogaram-no de um lado para o outro, e deram seu nome a grandes feitos, a grandes conquistas, a lugares e pessoas e momentos e batalhas e histórias e derrotas e façanhas e aventuras e destrezas, contaram de como tomou e concedeu poder, de como desfez o que era feito, refez o que se mal fizera e de como criara a partir do nada.

Mas ele permaneceu ali, imóvel.
Como sempre estivera, pensativo; ainda que mundos lhe acontecessem na cabeça.

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Publicado por Renato Alt

6 de set de 2010

:: Penitenziagite ::

E era como se lhe pesassem sobre os ombros muitos anos mais do que tinha, como se lhe corroessem os ossos os pensamentos sobre quem é, sobre onde está ou sobre onde que chegar ou com quem.

Sentia doer-lhe o corpo como se este gritasse, sentia arder as têmporas, faltar-lhe o ar ou, ainda, qualquer outro fôlego de vida. Estava, agora, um espectador do tempo, dos dias, e via as horas imporem-se umas sobre as outras e notava-se impotente, enquanto mais um fio do seu cabelo caía, ou mostrava-se grisalho, impaciente, impiedoso.

Pensava nos lugares em que esteve, e pensava se quando neles esteve soube percebê-lo, se soube absover, viver, experimentar; pensa nos lugares com os quais sonha, e se os anos que lhe restam permitirão que os venha a conhecer, ou se estarão condenados a ser um vislumbre em um final de noite qualquer, numa rápida passada pelo controle-remoto.

Ah, os sonhos, quantos são! Ele os vê desfilando diante dos seus olhos, exibidos, desafiadores: não está naquilo que lhe apresentam o dias a descoberta de si mesmo, ou sua realização, ou mesmo a aceitação; a imposição social é, quase sempre, destruidora implacável de aspirações e suspiros.

Então continuava ele, imerso em pensamentos, iluminado pelo tremeluzente azulado da TV, à qual não dava atenção há horas. Pensa para além do que poderia, para muito além do que deveria: "as próximas coisas são para depois das primeiras", era o óbvio que lhe repetiam, algo que não sem custo se permitia ouvir.

Pesavam-lhe, nos ombros, a dúvida; o medo; mas estendia a mão, ávido por quem a segurasse.

E seguia.

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Publicado por Renato Alt