8 de out de 2010

:: Hecatônquiro ::

No sonho, era assim:

ele andava, ainda que não soubesse onde, ainda que não importasse. Seguia descalço, sentindo na sola nua do pé o chão de terra úmida, gelada. Sentia as pedrinhas, sentia o frio passar por entre os dedos, sentia como se as pequenas poças de água lhe tocassem os ossos.

Vestia calça jeans. Sua preferida. Sabia que era a mesma que usava para trabalhar e para sair, e sabia, assim, que as barras das pernas arrastavam no chão, enlameavam-se, maiores do que deveriam ser. Sentia baterem pesadas no calcanhar, e sentia isso aumentar o frio que lhe subia pelas pernas.

Tinha o peito nu. O ar era denso, úmido, cobria a pele de minúsculas gotas, forçava-o a caminhar com olhos semicerrados.

Não que pudesse ver muito mais. Aos lados, fora da trilha, havia algo que parecia grama, e talvez folhas um pouco mais além. Mas a névoa, pegajosa, voraz, devorava o que mais houvesse no horizonte. Percebia alguma sombra, uma sugestão de construção, mas que parecia jamais aproximar-se, ainda que, incansável, ele prosseguisse.

Não sabia de onde viera. Não sabia por que caminhava.
Mas caminhava.

Sentia como se tocasse todo o mundo, como se tivesse braços por todo o corpo, como se pudesse olhar para todas as direções, ainda que não encontrasse repouso em lugar algum.

Era frio, e estranho, e assustador.

Mas ele avançava. Afinal, havia a construção, ou o que assim se insinuava, permanecia de pé, desafiando no horizonte.

...
Publicado por Renato Alt



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