14 de set de 2010

:: Hiálito ::

Não era ele.

Ele nada fizera.
Mas contaram onde esteve e onde não, e com quem falou, e com quem riu, e de quem discordou. Contaram de como chegara e de como se fizera anunciar, de como olhou para quem olhou e ainda sobre seus possíves porquês. Contaram alguma indiscrição que jamais fizera, um movimento que jamais intentara, e comentaram, desenfreados, empurrados pela ebriedade e por arremedos de emoção, sobre as ousadias e investidas que jamais empreitara.

Ele nada dissera.
Mas disseram dele, do quanto falara a respeito de uns e de outros que nunca viera a conhecer, e formaram, para ele, e emitiram, como dele, opiniões que nunca tivera. Atribuiram-lhe palavras e citações que nunca proferira, usaram como ilustrações pensamentos que nunca exprimira, e riram e soluçaram, e concordaram e discordaram e ponderaram e repensaram e observaram e treplicaram e expuseram e afirmaram sobre suas considerações, veemente, verborragicamente.

Ele nada moveu.
Mas jogaram-no de um lado para o outro, e deram seu nome a grandes feitos, a grandes conquistas, a lugares e pessoas e momentos e batalhas e histórias e derrotas e façanhas e aventuras e destrezas, contaram de como tomou e concedeu poder, de como desfez o que era feito, refez o que se mal fizera e de como criara a partir do nada.

Mas ele permaneceu ali, imóvel.
Como sempre estivera, pensativo; ainda que mundos lhe acontecessem na cabeça.

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Publicado por Renato Alt

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