6 de set de 2010

:: Penitenziagite ::

E era como se lhe pesassem sobre os ombros muitos anos mais do que tinha, como se lhe corroessem os ossos os pensamentos sobre quem é, sobre onde está ou sobre onde que chegar ou com quem.

Sentia doer-lhe o corpo como se este gritasse, sentia arder as têmporas, faltar-lhe o ar ou, ainda, qualquer outro fôlego de vida. Estava, agora, um espectador do tempo, dos dias, e via as horas imporem-se umas sobre as outras e notava-se impotente, enquanto mais um fio do seu cabelo caía, ou mostrava-se grisalho, impaciente, impiedoso.

Pensava nos lugares em que esteve, e pensava se quando neles esteve soube percebê-lo, se soube absover, viver, experimentar; pensa nos lugares com os quais sonha, e se os anos que lhe restam permitirão que os venha a conhecer, ou se estarão condenados a ser um vislumbre em um final de noite qualquer, numa rápida passada pelo controle-remoto.

Ah, os sonhos, quantos são! Ele os vê desfilando diante dos seus olhos, exibidos, desafiadores: não está naquilo que lhe apresentam o dias a descoberta de si mesmo, ou sua realização, ou mesmo a aceitação; a imposição social é, quase sempre, destruidora implacável de aspirações e suspiros.

Então continuava ele, imerso em pensamentos, iluminado pelo tremeluzente azulado da TV, à qual não dava atenção há horas. Pensa para além do que poderia, para muito além do que deveria: "as próximas coisas são para depois das primeiras", era o óbvio que lhe repetiam, algo que não sem custo se permitia ouvir.

Pesavam-lhe, nos ombros, a dúvida; o medo; mas estendia a mão, ávido por quem a segurasse.

E seguia.

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Publicado por Renato Alt


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