18 de out de 2010

:: Axioma ::

Se era assim, que fosse.

Não gostava da maneira como olhavam-no, como se cobrassem, sempre, que fosse bom o suficiente, inteligente o suficiente, sincero o suficiente, forte o suficiente ou seguro o suficiente, em todo tempo e em todo lugar, se quisesse parecer digno de atenção, sem ao menos lhe darem propósito para tal.

Detestava a maneira como falavam, colocados que se achavam acima do bem e do mal, mutilando sem dó um tanto de frases e idéias antes mesmo que pudessem apresentar algum sentido sentido, e de como mostravam-se senhores de toda a tolerância quando, em um breve descuido, ouviam sua voz.

Ele já não queria ser tolerado. Já não importava.

Não suportava mais que lhe dissessem o quanto poderia melhorar, mudar, amadurecer, enquanto eles próprios permaneciam imóveis em sua empáfia. Não suportava mais as palavras fortes que usavam para intimidar, uma vez que sabiam que por argumentos não se conseguiriam sustentar. Não suportava como manipulavam e distorciam o que dizia, forçando-o ao silêncio, pelo qual era também acusado, pelo qual também cobravam-lhe explicações.

Incomodava a sabatina a respeito de cada vírgula, de cada palavra, como se intentasse esconder segredos e verdades indizíveis, valendo-se de entrelinhas que não existiam. Incomodava que lhes fossem incompreensíveis as coisas que são simplesmente porque são.

Tornara-se impossível para tentar mostrar que as interpretações deles moldavam uma imagem distorcida de si, e tornara-se impossível conviver com regras que lhe cortavam inteiro, a fim de que se encaixasse em um modelo que diziam não exigir.

Mas agora passara.
Passara o silêncio da paciência, passara o silêncio da agressão, passara o silêncio da indiferença.

Por isso, ele permaneceria, sim, e definitivamente, em silêncio.
No silêncio que é, que existe, simplesmente por ser.

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Publicado por Renato Alt


8 de out de 2010

:: Hecatônquiro ::

No sonho, era assim:

ele andava, ainda que não soubesse onde, ainda que não importasse. Seguia descalço, sentindo na sola nua do pé o chão de terra úmida, gelada. Sentia as pedrinhas, sentia o frio passar por entre os dedos, sentia como se as pequenas poças de água lhe tocassem os ossos.

Vestia calça jeans. Sua preferida. Sabia que era a mesma que usava para trabalhar e para sair, e sabia, assim, que as barras das pernas arrastavam no chão, enlameavam-se, maiores do que deveriam ser. Sentia baterem pesadas no calcanhar, e sentia isso aumentar o frio que lhe subia pelas pernas.

Tinha o peito nu. O ar era denso, úmido, cobria a pele de minúsculas gotas, forçava-o a caminhar com olhos semicerrados.

Não que pudesse ver muito mais. Aos lados, fora da trilha, havia algo que parecia grama, e talvez folhas um pouco mais além. Mas a névoa, pegajosa, voraz, devorava o que mais houvesse no horizonte. Percebia alguma sombra, uma sugestão de construção, mas que parecia jamais aproximar-se, ainda que, incansável, ele prosseguisse.

Não sabia de onde viera. Não sabia por que caminhava.
Mas caminhava.

Sentia como se tocasse todo o mundo, como se tivesse braços por todo o corpo, como se pudesse olhar para todas as direções, ainda que não encontrasse repouso em lugar algum.

Era frio, e estranho, e assustador.

Mas ele avançava. Afinal, havia a construção, ou o que assim se insinuava, permanecia de pé, desafiando no horizonte.

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Publicado por Renato Alt