24 de nov de 2010

:: Madrigal ::

Então continuou.

- Isso aí, garoto, que você carrega no peito, jamais há de ver a luz do sol ou sentir o frescor da brisa. - Declamava com felicidade atroz - Jamais há de sentir o salgado do mar ou o frio de um gramado qualquer. Não vai ouvir o latido de cães ou as risadas em uma festa. Não vai sentir perfumes ou sabores, envolver-se por música ou pelo crepitar do fogo. Guarde tudo isso, garoto, para si. Não comente, não pense a respeito, não confidencie a amigo algum. Mantenha trancado em seu cerne e lance fora a chave, ou, ainda, faça melhor e entregue-a a mim. Você, garoto, não sabe que jogo é esse e é por demais incompetente e imaturo para conseguir aprendê-lo. Seu tempo, entenda, já se foi, e não resta nada mais que você possa fazer para resgatá-lo. Não espere de mim qualquer boa vontade que lhe permita tentar ainda outra vez. Ouça isso de mim, pois sou eu que decido, e eu que lho digo.

Houve silêncio.
Um profundo suspiro deu lugar à voz fraca, translúcida.


-Talvez eu prefira assim. - Retrucou ele, sem qualquer convicção no que dissera, perfurando a penumbra estática que interferia em seus pensamentos.

Os olhos do outro, incandescentes, eram desprezo e miséria. Sua língua despejava as palavras como quem chicoteia, ferina, implacável, imutável.

-É claro que você diria isso. - Disparou, enfim - Você, garoto, continua tentando dizer a si mesmo que nada é como é. Mas você há de aceitar sim, todavia não porque o escolheu, mas porque você, entenda, nada é. Ou, se é, não passa de um joguete, um arremedo de experiência falhada, e o que resta nesse poço lodoso que carrega no peito não são mais do que despojos desprezados de uma guerra que você já perdera mesmo antes de nela entrar. E o fez, saiba bem, porque eu decidi assim, desde sempre, e desde sempre soube que hoje, agora, aqui, eu lhe diria o que digo, e já sei o que você dirá a seguir. Sei quando suas palavras acabarão, então não se apresse e pense nelas o quanto quiser, poupando-me da enfadonha tarefa de responder antes mesmo de lhe ouvir.

Um breve nada, e a outra voz se fez ouvir, carregando palavras carregadas de uma heresia inexplicável.

-Minhas mãos e as dela tocaram-se naquela tarde. - sua voz, algo chorosa, denunciava-o, acusava a ciência de que cada sílaba, cada som que saía de si, já havia sido estudado, julgado e condenado desde tempos imemoriais, e sentia levarem consigo todo o seu alento. Mas as palavras, já sabia bem, são criaturas vivas, e não podem encerrar seu ciclo sem antes virem à existência.

O outro sorriu. O sorriso do conhecimento, da certeza.

-Então diga-me, garoto, o que é que houve. Então diga-me que foi decisão sua se afastarem. Diga-me que não foi ela quem mostrou-se distante, quem recuou ao notar a própria guarda aberta, quem mostrou-se condoída quando na verdade, no íntimo, o queria distante. Diga-me que ela não o considerava um estorvo, diga-me que sempre sentiu-se confortável e seguro em seus braços, diga-me que encontrava neles repouso certo e não mais perguntas do que respostas. Diga-me que, de fato, ouviu-a falar de si, que a viu entregar-se, que a sabia inteiramente sua. Diga-me qualquer dessas coisas, e me retiro daqui, e lha devolvo.

O rapaz, então, cerrou os olhos, impossível que era mantê-los abertos.
E enquanto suspirava, ouvia o outro acomodar-se em seu lugar.


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Publicado por Renato Alt