28 de dez de 2010

:: Ano Novo ::

Como ainda falta realizar uma ou outra coisa desta antiga lista de resoluções, achei por bem publicá-la de novo. Acho que desta vez vai.
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Resolvi que, se é no início do ano que estabelecemos tudo aquilo que há de se cumprir nos próximos 365 dias, nada melhor que fazê-lo por escrito. É o que vale, pelo que dizem.

Assim, decidi que meu livro vai enfim sair do teclado e ganhar as prateleiras. Que vai conter diálogos mais elaborados que os de Aldous Huxley e mais espontâneos que os de J.D. Salinger. E que essa obra vai me dar o Pulitzer e o Nobel, além de uma cadeira extra colocada na ABL especialmente para mim.
Durante minha entrevista no Letterman, respondo: “Hemingway who?”

Decidi que vou ganhar a Medalha Fields, apesar de já não recordar nem mesmo como solucionar uma equação do segundo grau e de minhas semelhanças com John Nash se limitarem a ver o que não está lá.
Se alguém quiser me ajudar a lembrar das equações, cito o nome no discurso de agradecimento.

Decidi que vou ser igual ao Brad Pitt. Fisicamente, quero dizer. Ainda que pra isso tenha que passar por uma breve cirurgia plástica.

(Ok, talvez não tão breve.)

Financeiramente, vou bater Bill Gates. E com esse dinheiro, fazer coisas mais excêntricas que apenas inserir joguinhos secretos nas planilhas do Excel.
Decidi que os desenhos que faço serão descobertos por um olheiro à Andy Warhol, e que os museus de todo o mundo retirarão os quadros do Lichtenstein das paredes para que dêem lugar aos meus.

Decidi reinventar todas as teorias a respeito de buracos-negros e provar cada uma delas, fazendo Stephen Hawking saltar de sua cadeira. Decidi pensar novos pensamentos, que fariam Platão desejar sua caverna e Kierkergaard repensar seu "conceito de ironia".

Decidi que, com tudo isso, vão me oferecer uma casa em Tahiti Beach em troca da minha participação em um dos episódios de “Life of Luxury”. Que as festas que vou promover nela, com Tiësto e Paul Van Dyk estapeando-se pelo controle das mesas, serão mais concorridas que as do Hugh Hefner, abalando sua eterna amizade com Leonardo DiCaprio e dispersando sua criação de coelhas.

Mas apesar dessa casa, decidi que Zaha Hadid vai se oferecer para projetar outra para mim. E que vou aceitar.

Decidi que graças a um curso de teatro vou ser contratado para a próxima franquia de sucesso: acima de todos os James Bond, Indiana Jones e Harry Potters que estão por aí. Decidi que, como escritor vencedor do Nobel, vou dar palpites no roteiro e tornar o filme de estréia o mais cotado para o Oscar. E que Charlie Kaufman vai me pedir uma dica ou outra para o seu próprio. Com isso vou ganhar as estatuetas de Melhor Ator e, claro, Roteirista… apesar de que só na cerimônia de 2012. E se o mundo ainda existir.

Ah, claro: como publicitário, a campanha de lançamento do meu blockbuster também será minha. E o Leão de ouro em Cannes por ela também.

Decidi que vou namorar a Liv Tyler. E/ou a Victoria Silvstedt. E/ou a Linda Fiorentino. E/ou a Salma Hayek. E/ou a Monica Bellucci. E/ou a Lara Flynn Boyle. E/ou a Helena Ranaldi. E/ou a Carolina Ferraz. E/ou a Aline Moraes. Não só essas. Não necessariamente nessa ordem. Não necessariamente uma de cada vez. E decidi que o amor delas por mim vai ser sincero.

Se não for, compro um que seja.

Decidi que vou descobrir o moto-contínuo, a cura para o câncer e a AIDS e a solução para a fome ná África, no Brasil e onde mais houver. Que meu discurso no recebimento do Oscar vai estabelecer a paz entre judeus e palestinos. Entre gregos e troianos. Entre Courtney Love, Chris Novoselic e Dave Grohl.

Ah, sim: vou encontrar Osama Bin Laden e descobrir o criador das "bonecas da morte". E saber qual é a pergunta cuja resposta é “42”.

Em minha entrevista no Jô Soares: “Com licença. Sou eu quem está falando.”

Decidi que vou começar um negócio numa área inovadora, nunca imaginada. Se você não faz ideia do que estou falando, é sinal de que estou no caminho certo.


Enfim, não sei o que você decidiu fazer no próximo ano. Mas, ao que parece, ser meu amigo pode ser uma grande idéia.

Feliz Ano Novo.

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20 de dez de 2010

:: Enleio ::

Era uma coisa que não tinha nome, mas que ele tentava de todo jeito batizar. Não gostava de se referir à ela, mas quando precisava, dizia que era um nó. Mais fácil para entenderem, provocava menos perguntas e o assunto morria ali, depois de um "também sinto isso" e de um estalar de lingua.

Mas não era.

Era como um núcleo pesado, intransponível, como coisa física que se alojara entre o peito e a garganta, que não se deixa dissolver, que não se deixa ignorar, que não se deixa esquecer. Estava sempre ali, esmagando qualquer traço de felicidade que tentasse alcançar-lhe os lábios, esmagando esperanças de coisas que sequer se permitia sonhar, esmagando possibilidades, esmagando a alma, drenando o alento e acizentando os dias.

Ainda assim, às vezes, algo arranhava essa superfície arrancando-lhe uma lasca, e esta, encontrando a boca aberta, precipitava-se para fora com ímpeto incontrolável, arrastando consigo a multidão nefasta de sentimentos indiscerníveis, despejados sobre os que estivessem por perto e que, atônitos, pouco podiam fazer além de ouvir e, depois, ainda que somente para si, considerá-lo insuportável e louco, ainda que cada um deles repousasse a cabeça sobre a própria hipocrisia, em suas belas camas e enormes edredons.

Transitava pelos dias como alma penada, abarrotado de afazeres para os quais não encontrava propósito, traçando objetivos que não lhe diziam respeito, na esperança de que algo acontecesse, e de que esse algo lhe roubasse qualquer possibilidade de passar a vida regurgitando o mesmo marasmo boquirroto: fosse insurgência, cataclisma, ou ainda a loucura, pura e simples, que já flagrara convidando-o a entregar-se aos seus encantos, aos quais ele quase, quase, cedeu.

Não havia nome para o que ele sentia. Estava entranhado em seus ossos, em sua carne, saindo-lhe pelos poros e contaminando seus olhos e pensamentos. Era algo que não se continha mas que, exigindo espaço, travava-lhe os músculos, roubava-lhe o sono, forçava-o a passar os dias trincando os dentes e respirando fundo, enquanto respondia com um sorriso a uma ou outra pergunta, enquanto espalhava frases e idéias que vendiam mais, que consumiam mais, que valorizavam mais.

E assim seguia ele, inominado, vestido de sorriso e olhares compreensivos, enquanto permanecia com as mãos estendidas feito pedinte na calçada, aguardando, do céu ou da terra, alguma forma de redenção.

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Publicado por Renato Alt

6 de dez de 2010

:: Néctico ::

E agora, o que vem?

As eternas promessas de nunca mais passar por isso, o eterno engano de não se deixar abater, a eterna mentira que grita, descrente, que é melhor assim, na tentativa inútil de fingir não querer que tudo fosse diferente.

Agora vêm as noites turbulentas, vem algum alívio mal interpretado e a falsa satisfação por não precisar perguntar se tudo bem uma outra idéia. Vêm os dias seguidos de horas que não passam e de propósitos que não se firmam, vêm momentos que não encontram eco por não terem com quem serem divididos. Vem a certeza de que o futuro mudou completamente, e de que tudo o que poderia ser, como em um estalar de dedos, desvaneceu no vento e na poeira.

Chega o instante em que a volta não tem razão, em que ideias perdem-se em si mesmas, em que vitórias e derrotas diferem umas das outras apenas diante de olhos que pouco importa o que enxergam: à noite, sobre o colchão, já não há diferenca para quantos ou para quem mostrou-se tão hábil, tão inteligente ou tão nobre.

E agora, o que vem?

A mesma estrada, aquela trilhada desde que o tempo é tempo, o caminho desgastado, árido, que caleja pés e espíritos.

E agora, há que continuar: ainda que não se saiba para onde, ou para quem, ou o porquê.

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Publicado por Renato Alt