20 de dez de 2010

:: Enleio ::

Era uma coisa que não tinha nome, mas que ele tentava de todo jeito batizar. Não gostava de se referir à ela, mas quando precisava, dizia que era um nó. Mais fácil para entenderem, provocava menos perguntas e o assunto morria ali, depois de um "também sinto isso" e de um estalar de lingua.

Mas não era.

Era como um núcleo pesado, intransponível, como coisa física que se alojara entre o peito e a garganta, que não se deixa dissolver, que não se deixa ignorar, que não se deixa esquecer. Estava sempre ali, esmagando qualquer traço de felicidade que tentasse alcançar-lhe os lábios, esmagando esperanças de coisas que sequer se permitia sonhar, esmagando possibilidades, esmagando a alma, drenando o alento e acizentando os dias.

Ainda assim, às vezes, algo arranhava essa superfície arrancando-lhe uma lasca, e esta, encontrando a boca aberta, precipitava-se para fora com ímpeto incontrolável, arrastando consigo a multidão nefasta de sentimentos indiscerníveis, despejados sobre os que estivessem por perto e que, atônitos, pouco podiam fazer além de ouvir e, depois, ainda que somente para si, considerá-lo insuportável e louco, ainda que cada um deles repousasse a cabeça sobre a própria hipocrisia, em suas belas camas e enormes edredons.

Transitava pelos dias como alma penada, abarrotado de afazeres para os quais não encontrava propósito, traçando objetivos que não lhe diziam respeito, na esperança de que algo acontecesse, e de que esse algo lhe roubasse qualquer possibilidade de passar a vida regurgitando o mesmo marasmo boquirroto: fosse insurgência, cataclisma, ou ainda a loucura, pura e simples, que já flagrara convidando-o a entregar-se aos seus encantos, aos quais ele quase, quase, cedeu.

Não havia nome para o que ele sentia. Estava entranhado em seus ossos, em sua carne, saindo-lhe pelos poros e contaminando seus olhos e pensamentos. Era algo que não se continha mas que, exigindo espaço, travava-lhe os músculos, roubava-lhe o sono, forçava-o a passar os dias trincando os dentes e respirando fundo, enquanto respondia com um sorriso a uma ou outra pergunta, enquanto espalhava frases e idéias que vendiam mais, que consumiam mais, que valorizavam mais.

E assim seguia ele, inominado, vestido de sorriso e olhares compreensivos, enquanto permanecia com as mãos estendidas feito pedinte na calçada, aguardando, do céu ou da terra, alguma forma de redenção.

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Publicado por Renato Alt

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