24 de jan de 2011

:: Filigrana ::

A casa era antiga, tinha um cheiro frio e úmido, e ao longo dos últimos cinquenta anos não tinha visto qualquer sinal de reforma, exceto uma demão de tinta aqui ou ali, ainda assim feita meio no improviso.

As paredes entregaram-se à umidade, e já não faziam qualquer esforço para segurar seus rebocos, evitando que caíssem nos pés ou na cabeça de quem quer que tentasse se aventurar por seus corredores, onde, lado a lado, perfilavam-se imagens de santos tristonhos, escurecidos, há anos dando de comer a ovelhas esfaimadas ou segurando bebês gorduchos e descascados, cujos olhos miravam horizontes distantes e inatingíveis.

Ele passeou durante mais algum tempo por ali, deixando o carro e o motor desligados do lado de fora, sob a bruma e a friagem, deixando que uma fina e tímida camada de gelo cobrisse a lataria. Percorria sobre o chão de madeira acompanhado dos sons do assoalho, perambulando por aquela construção condenada, esquecida, mas que tanto fazia ferver seu sangue e imaginação.

Deixava-se levar para aqueles outros dias dos quals os tijolos foram testemunha, deixava-se levar para outras impressões, outros humores e outras circunstâncias. Deixa-se levar para risos de crianças que subiam e desciam as escadas, sob a repreensão de suas mães, temerosas de que pudessem cair a qualquer momento. Deixava-se lembrar do cheiro do molho de tomate e carne fervendo no fogo e tomando conta de todos os ambientes, interrompido aqui e ali por comentários famintos e jocosos.

- Esse cheiro eu conheço!

Sobre paredes escurecidas, permaneciam, vigilantes, algumas fotos pelas quais ninguém se interessara, nem mesmo ele, ainda que não soubesse por quê. Estavam envergonhadas da própria idade, pelo que parecia, e tentavam esconder-se por detrás do escurecido do vido da moldura, ansiosas por serem deixadas em paz novamente; mas ele recolheu-as, e observou os olhos curiosos daqueles que há muito se foram, cujos nomes aqueles que sabiam já não mais caminhavam ali. Eram oito os quadros, e colocou-os todos debaixo do braço, enquanto continuava a caminhada.

Houve um tempo, muito antes da bruma e do frio, muito antes das heras e trepadeiras, em que ele próprio passeara por ali e desvendara mistérios desconhecidos da humanidade, ouvira sons proibidos, conversara com criaturas inimagináveis e que, agora, mantinham-se caladas, velando o espaço com sua presença intangível, enquanto permitiam a ele caminhar por aqui e por ali.

Houve um longo suspiro e ele apoiou-se na bengala. Tudo aquilo era, agora, dele, e havia concordado em ceder o lugar para alguma coisa qualquer que não sabia bem o que era, mas sob a condição de que lhe fosse permitido fazer essa última visita, sozinho, sem perturbações.

Voltou ao carro, resignado. Sabia que levava, consigo, mais do que qualquer palavra poderia justificar. Nenhum sorriso ou história encontraria graça nos ouvidos de qualquer empreiteiro. Com um sorriso, via todas as lembranças mandarem-lhe um adeus, enquanto seu calhambeque, anacrônico e perfeitamente conservado, dava uma primeira resmungada e enfim levava-o névoa adentro, até o tempo em que já não mais se importava.

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Publicado por Renato Alt



17 de jan de 2011

:: Necídalo ::

Continuava imóvel, convencido de que, talvez, se mais alguns segundos corressem em silêncio, ela reconsiderasse, e pudessem terminar aquela noite como ele a havia planejado desde muito antes. E talvez pudessem perder-se novamente nos braços um do outro, enquanto a noite seguiria seu curso, levando em seus minutos todo resto de mal entendido que as últimas palavras – ou, ainda, que a ausência delas – instalaram naquele quarto, fazendo colar à pele o ranço de solidão que, afinal, era o que mais lhes apavorava.

- Talvez seja o caso de ir embora. – Disse ele, sem qualquer convicção, sem qualquer vontade, na esperança de que a frase fosse interrompida antes de se fazer ouvir. No entanto, mais do que isso, as palavras ocuparam o quarto e encheram-no com um desconforto indescritível.

- Você é quem sabe. 

Arrumou lentamente, ruidosamente, as poucas coisas que tinha ali: algumas roupas, coisas de toilette, um livro lido pela metade e um dvd emprestado dela, que já não sabia se deveria colocar na mochila ou não.

Ela o viu juntando tudo, viu sua proposital demora, mas não o ajudou. Não o impediu. Olhou, em silêncio, evitando os olhos dele. Flagrou-o retirando da bolsa coisas que estavam já perfeitamente acomodadas, dizendo qualquer coisa no sentido de ajeitá-las melhor, e sabia que o fazia apenas para ganhar algum tempo; ela sentia-se cobrada, sufocada, encostada à parede sob a exigência de emitir algum som, qualquer um. Antes disso, porém, fugiu para a cozinha anunciando que tinha sede, e perguntando se queria ele também um pouco de água.

- Não, obrigado

Fechou a mochila e permaneceu sentado na cama, sem saber ao certo como levantar. Ela sentou ao seu lado. Sabia, agora, que ele não mais pensava em passar a noite ali, e foi com essa certeza que arriscou-se a perguntar.

- Tem certeza?
- Não. Não tenho.

E mais uma vez ficaram lado a lado, por um tempo infinito, até que, súbito, ele levantou-se e colocou a mochila nas costas. Ela assustou-se. Esboçaram um riso, que morreu tão logo percebeu que não havia ali ocasião para ele.

- Eu te amo. – Ele disse quase sem querer, em um quase desespero. Ela sorriu e o acompanhou até o carro. No caminho, como se o mundo tivesse voltado a girar, surgiram assuntos perdidos, ameninades, ar. Ele jogou a bolsa no banco de trás e acomodou-se para dirigir. Sorriram.

- Me avisa quando chegar. - ela murmurou.

Com o rádio tocando alguma coisa de Belle & Sebastian, deram um beijo estranho, e viram em seus olhos que algo havia acontecido.

Ela voltou para casa, e ele dirigiu noite adentro, perfurando  veloz a madrugada, dividindo-se entre soluços e sons.

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Publicado por Renato Alt

11 de jan de 2011

:: Halo ::

Era uma ponte velha demais, e de certo não lhe aguentaria o peso. Chovia fino e frio, e o leve assovio do vento era suficiente para fazer rangerem cada uma das tábuas de madeira que, mal-humoradas, prendiam-se umas às outras por um trançado inexpugnável de cordas, enquanto rangiam e chiavam feito velhas doentes. A névoa impedia a visão,  tornando impossível prever o que aguardava do outro lado - ou mesmo se havia um outro lado. Ainda assim, havia que atravessar, porque já mais nada havia neste lado lhe prendia a atenção: nenhum amor, nenhuma conquista, nenhum nome, nenhuma semente plantada, nenhum fruto a esperar.

Não sabia ao certo como chegara ali. Não lembrava de tê-lo intentado, não  lembrava de quaisquer conselhos que o tivessem impulsionado até ali. Mas ainda assim, resignado, percebia que seus pés não lhe poderiam ter levado a outro lugar; não com a cabeça que tem agora, com os sentimentos que tem agora, com os sonhos que tem agora ou com os amores que um dia tivera: isso, sabia enfim, era o que lhe dava algum chão, ainda que, instável, se mantivesse em movimento: não houve pousada para seu coração ou alento para seu espírito, não houve o beijo de boas-vindas ou o suor dos corpos nus, fundidos um ao outro durante noites sem fim. Estava só, e essa era toda a sua certeza, e toda a de que precisava para olhar adiante e respirar fundo.

Assim, olhos cerrados e rosto coberto de sereno, apoiou o pé sem saber se a tábua assim o queria, e impôs sobre ela seu peso: o que viesse adiante, pensou, bem, que viesse; o que importava agora era, apenas, passo a passo, deixar tudo o que já foi enfim perder-se na bruma do esquecimento, ainda que o futuro fosse muito mais turvo do que qualquer uma de suas memórias.
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Publicado por Renato Alt