11 de jan de 2011

:: Halo ::

Era uma ponte velha demais, e de certo não lhe aguentaria o peso. Chovia fino e frio, e o leve assovio do vento era suficiente para fazer rangerem cada uma das tábuas de madeira que, mal-humoradas, prendiam-se umas às outras por um trançado inexpugnável de cordas, enquanto rangiam e chiavam feito velhas doentes. A névoa impedia a visão,  tornando impossível prever o que aguardava do outro lado - ou mesmo se havia um outro lado. Ainda assim, havia que atravessar, porque já mais nada havia neste lado lhe prendia a atenção: nenhum amor, nenhuma conquista, nenhum nome, nenhuma semente plantada, nenhum fruto a esperar.

Não sabia ao certo como chegara ali. Não lembrava de tê-lo intentado, não  lembrava de quaisquer conselhos que o tivessem impulsionado até ali. Mas ainda assim, resignado, percebia que seus pés não lhe poderiam ter levado a outro lugar; não com a cabeça que tem agora, com os sentimentos que tem agora, com os sonhos que tem agora ou com os amores que um dia tivera: isso, sabia enfim, era o que lhe dava algum chão, ainda que, instável, se mantivesse em movimento: não houve pousada para seu coração ou alento para seu espírito, não houve o beijo de boas-vindas ou o suor dos corpos nus, fundidos um ao outro durante noites sem fim. Estava só, e essa era toda a sua certeza, e toda a de que precisava para olhar adiante e respirar fundo.

Assim, olhos cerrados e rosto coberto de sereno, apoiou o pé sem saber se a tábua assim o queria, e impôs sobre ela seu peso: o que viesse adiante, pensou, bem, que viesse; o que importava agora era, apenas, passo a passo, deixar tudo o que já foi enfim perder-se na bruma do esquecimento, ainda que o futuro fosse muito mais turvo do que qualquer uma de suas memórias.
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Publicado por Renato Alt

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