17 de jan de 2011

:: Necídalo ::

Continuava imóvel, convencido de que, talvez, se mais alguns segundos corressem em silêncio, ela reconsiderasse, e pudessem terminar aquela noite como ele a havia planejado desde muito antes. E talvez pudessem perder-se novamente nos braços um do outro, enquanto a noite seguiria seu curso, levando em seus minutos todo resto de mal entendido que as últimas palavras – ou, ainda, que a ausência delas – instalaram naquele quarto, fazendo colar à pele o ranço de solidão que, afinal, era o que mais lhes apavorava.

- Talvez seja o caso de ir embora. – Disse ele, sem qualquer convicção, sem qualquer vontade, na esperança de que a frase fosse interrompida antes de se fazer ouvir. No entanto, mais do que isso, as palavras ocuparam o quarto e encheram-no com um desconforto indescritível.

- Você é quem sabe. 

Arrumou lentamente, ruidosamente, as poucas coisas que tinha ali: algumas roupas, coisas de toilette, um livro lido pela metade e um dvd emprestado dela, que já não sabia se deveria colocar na mochila ou não.

Ela o viu juntando tudo, viu sua proposital demora, mas não o ajudou. Não o impediu. Olhou, em silêncio, evitando os olhos dele. Flagrou-o retirando da bolsa coisas que estavam já perfeitamente acomodadas, dizendo qualquer coisa no sentido de ajeitá-las melhor, e sabia que o fazia apenas para ganhar algum tempo; ela sentia-se cobrada, sufocada, encostada à parede sob a exigência de emitir algum som, qualquer um. Antes disso, porém, fugiu para a cozinha anunciando que tinha sede, e perguntando se queria ele também um pouco de água.

- Não, obrigado

Fechou a mochila e permaneceu sentado na cama, sem saber ao certo como levantar. Ela sentou ao seu lado. Sabia, agora, que ele não mais pensava em passar a noite ali, e foi com essa certeza que arriscou-se a perguntar.

- Tem certeza?
- Não. Não tenho.

E mais uma vez ficaram lado a lado, por um tempo infinito, até que, súbito, ele levantou-se e colocou a mochila nas costas. Ela assustou-se. Esboçaram um riso, que morreu tão logo percebeu que não havia ali ocasião para ele.

- Eu te amo. – Ele disse quase sem querer, em um quase desespero. Ela sorriu e o acompanhou até o carro. No caminho, como se o mundo tivesse voltado a girar, surgiram assuntos perdidos, ameninades, ar. Ele jogou a bolsa no banco de trás e acomodou-se para dirigir. Sorriram.

- Me avisa quando chegar. - ela murmurou.

Com o rádio tocando alguma coisa de Belle & Sebastian, deram um beijo estranho, e viram em seus olhos que algo havia acontecido.

Ela voltou para casa, e ele dirigiu noite adentro, perfurando  veloz a madrugada, dividindo-se entre soluços e sons.

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Publicado por Renato Alt

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