28 de fev de 2011

:: Jalne ::

A porta estava fechada havia muito, e os mais novos nem sequer sabiam o que estava por detrás dela. E a senhora, claro, fazia questão de que assim fosse.

Isso, no entanto, nunca os impediu de fantasiar: ao contrário,  imaginavam criaturas e mundos e cores e cheiros e sabores, e sabiam qual era a hora do dia em que a luz tremeluzente, irrequieta, emanava dourada pela pequena fresta sob a porta e cobria, tímida, alguns poucos tacos que se estendiam sobre o chão do terceiro andar.

Às vezes, a senhora subia ali, e olhava ao redor e colocava a chave e a virava, e um ruído pesado que lançava por terra qualquer discrição tomava conta de todo o ambiente, enquanto as crianças, afoitas, subiam em  polvorosa, tentando vislumbrar qualquer coisa que lhes alcançasse a vista.

A senhora sabia. E ria, gostosa, consigo mesma, enquanto lá dentro mexia e remexia lembranças que diziam respeito somente a si. Ouvia os pequenos e seus murmurinhos do lado de fora, e há tempos dissera, e insistira, que os empregados não deveriam interferir: que tentassem as crianças, com suas artimanhas, descobrir o que o quarto no terceiro andar escondia; enquanto não o soubessem, escondia tudo.

Passou o tempo, entretanto, e chegou o dia em que a chave do quarto mudara de mãos: a senhora havia partido, com sua peraltice infantil, e chegou a notícia a uma daquelas que fora criança arteira ao pé da porta, que agora, mulher adulta, mãe, e, de repente, sobressaltada por mais sentimentos do que poderia expressar, recebia o que, à primeira vista, era apenas uma carta, uma chave, e poucas palavras escritas em letras grandes, letras de quem já não pode enxergar tão bem: "agora, é seu." Mas tanto mais era, e ela o sabia bem.

A mulher sorriu, deixou que a lágrima lhe corresse pelo rosto e trouxesse  dúvida à voz da filha que, sem rodeios, disparou: "mas mãe, o que há nesse tal quarto trancado?"

Com um sorriso, enquanto guardava a chave na caixinha de música que herdara, respondeu, ao som de "O Lago dos Cisnes": "o que há, querida, cabe a a você imaginar. A mim, por enquanto, resta apenas guardar."

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Publicado por Renato Alt

14 de fev de 2011

:: Inção ::

Foi ontem?

Desculpe, não lembro. Pode ter sido ontem.
Ou pode ter sido mês passado. Ou ano passado. Ou em outra vida.
Importa?

Eu lhe dizia tanto, do tão profundo que vinha de mim, mas parecia falar ao vento. Seu sorriso concordava mas nada dizia, e deixava passar o momento sem mostrar-se claramente ao meu lado, ou compreensiva, ou mesmo contrária; jamais consegui desvendar-lhe o semblante, e hoje sei que assim era porque você assim queria. Foi custoso, sim, doloroso: enfim percebi que me queria distante, ainda que minhas mãos lhe tocassem os lábios, os seios ou as coxas. Percebi que me queria ausente ainda que suspirasse um arfar quente e úmido em meus ouvidos, ainda que, de olhos fechados, mostrasse-me seus lábios brancos tal a força que lhe imprimiam seus dentes, ao ponto de quase sangrarem. Vejo que queria-me ausente mesmo quando enterrava as unhas em minhas costas, ou empurrava as ancas contra mim e gritava seu grito mudo, sofrido, e vertia algumas lágrimas que jamais preocupei-me em decifrar: eram claras, até então.

Já não lembro de quando foi que aconteceu, no entanto. Quando foi que você tornou-se essa névoa algo indistinta em minha memória. Lembro de quando disparou contra mim as palavras que nos separaram, quando disse qualquer coisa sobre não estar pronta, ou sobre eu não estar. Lembro de um longo caminho de volta para casa e de relances de coisas que podem ou não ter sido ditas.

Lembro de haver mágoa. Não a mágoa de quem fere por saber ferir, mas a mágoa de quem fere porque lhe é indiferente, mágoa de alguém para quem é fácil seguir adiante e virar mais uma página, como tantas que já virou, e deixar que o tempo se encarregue de sepultar tudo em silêncio.

Pois sepultou, é fato.
Agora, o que há é sim o silêncio.

E você, então, já não sei mais em qual parte da minha memória se encaixa. Ou mesmo, confesso, se há lugar nela que lhe receba.

Talvez, então, haja em outro dia, em algum futuro.
Ou, quem sabe, em outra vida.
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Publicado por Renato Alt

2 de fev de 2011

:: Árula ::

É verdade. Faz algum tempo já.

Fiquei pensando se devia falar com você ou não. Ainda não tenho bem certeza se decidi pelo que é certo, mas como até o que é certo tantas vezes se mostra confuso e impreciso, revolvi escrever meio que por impulso mesmo. Sei que uma das coisas que mais a incomodavam era justamente essa impulsividade, essa inconsequência adolescente, e você sabe melhor do que ninguém - talvez até do que eu mesmo - o quanto tentei mudar e agir de forma diferente, o quanto respirei fundo e caminhei para um lado enquanto meu espírito empurrava-me para outro, e o quanto eu roubei de mim mesmo a fim de agir de  maneira que me tornasse melhor, ou que pelo menos você achasse melhor, e que, no final,  sempre, acabava por nada adiantar, já que os padrões de comportamento que você estabeleceu são impossíveis de serem seguidos, mesmo por você, o que nos tornava companhia tempestuosa e aflitiva um para o outro durante todo o tempo em que estávamos, e estivemos, juntos.

Mas hoje eu quero lembrar de outras coisas. Antes que pense que pretendo, com isso, tê-la de volta, faço questão de dizer que não é o caso. Não quero. Mesmo. Penso em mim como estou agora e tento projetar como seria se você estivesse aqui e, desculpe a franqueza, é quase um alívio saber que não está. Mas dizer que o que tivemos foi apenas um acúmulo de cansaço também não seria justiça: fomos intensos. Talvez intensos demais. Não arrependo-me de nada, ainda que, sinceramente, duvido que aguentasse um dia a mais.

Quero lembrar de quando fomos àqueles lugares perdidos em meio à mata e à chuva, descobrindo espaços que pareciam preparados justamente para recompensar aqueles que saíram em sua busca. Quero lembrar de quando ouvíamos música e bebíamos vinho madrugada adentro, dando novas interpretações para as letras das músicas de maneira que todas elas pareciam contar a nossa história. Quero lembrar de quando pegávamos o carro e saíamos sem destino, tornando, assim, alcançáveis todos os lugares do planeta. Quero lembrar de quando ficávamos sozinhos e nos perdíamos um no outro, sem pressa, despreocupados do mundo que insistia em suas mazelas porta afora, sabendo que nada era mais importante do que o que tínhamos ali.

Sei de tudo o que vivemos. Sei do tanto que vivemos.E sei que você, à essa hora, coça a cabeça procurando uma razão, qualquer que seja, que justifique estas minhas palavras. Mas aí está a grande magia da qual eu já estava me esquecendo: nem tudo precisa seguir a lógica.

Deixo para outro momento uma despedida mais emocionada, mesmo porque sequer sei se essas palavras vão mesmo encontrá-la. Se sim, receba meu beijo carinhoso. Se não, tudo bem: como tantos outros sentimentos que se apresentaram, guardo também esse, como tesouro que não há de conhecer outro dono.

Talvez um dia, quem sabe, entre um gole e outro, possamos reviver idos tempos.
Ainda que eu ache que não devamos contar com isso.

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Publicado por Renato Alt