2 de fev de 2011

:: Árula ::

É verdade. Faz algum tempo já.

Fiquei pensando se devia falar com você ou não. Ainda não tenho bem certeza se decidi pelo que é certo, mas como até o que é certo tantas vezes se mostra confuso e impreciso, revolvi escrever meio que por impulso mesmo. Sei que uma das coisas que mais a incomodavam era justamente essa impulsividade, essa inconsequência adolescente, e você sabe melhor do que ninguém - talvez até do que eu mesmo - o quanto tentei mudar e agir de forma diferente, o quanto respirei fundo e caminhei para um lado enquanto meu espírito empurrava-me para outro, e o quanto eu roubei de mim mesmo a fim de agir de  maneira que me tornasse melhor, ou que pelo menos você achasse melhor, e que, no final,  sempre, acabava por nada adiantar, já que os padrões de comportamento que você estabeleceu são impossíveis de serem seguidos, mesmo por você, o que nos tornava companhia tempestuosa e aflitiva um para o outro durante todo o tempo em que estávamos, e estivemos, juntos.

Mas hoje eu quero lembrar de outras coisas. Antes que pense que pretendo, com isso, tê-la de volta, faço questão de dizer que não é o caso. Não quero. Mesmo. Penso em mim como estou agora e tento projetar como seria se você estivesse aqui e, desculpe a franqueza, é quase um alívio saber que não está. Mas dizer que o que tivemos foi apenas um acúmulo de cansaço também não seria justiça: fomos intensos. Talvez intensos demais. Não arrependo-me de nada, ainda que, sinceramente, duvido que aguentasse um dia a mais.

Quero lembrar de quando fomos àqueles lugares perdidos em meio à mata e à chuva, descobrindo espaços que pareciam preparados justamente para recompensar aqueles que saíram em sua busca. Quero lembrar de quando ouvíamos música e bebíamos vinho madrugada adentro, dando novas interpretações para as letras das músicas de maneira que todas elas pareciam contar a nossa história. Quero lembrar de quando pegávamos o carro e saíamos sem destino, tornando, assim, alcançáveis todos os lugares do planeta. Quero lembrar de quando ficávamos sozinhos e nos perdíamos um no outro, sem pressa, despreocupados do mundo que insistia em suas mazelas porta afora, sabendo que nada era mais importante do que o que tínhamos ali.

Sei de tudo o que vivemos. Sei do tanto que vivemos.E sei que você, à essa hora, coça a cabeça procurando uma razão, qualquer que seja, que justifique estas minhas palavras. Mas aí está a grande magia da qual eu já estava me esquecendo: nem tudo precisa seguir a lógica.

Deixo para outro momento uma despedida mais emocionada, mesmo porque sequer sei se essas palavras vão mesmo encontrá-la. Se sim, receba meu beijo carinhoso. Se não, tudo bem: como tantos outros sentimentos que se apresentaram, guardo também esse, como tesouro que não há de conhecer outro dono.

Talvez um dia, quem sabe, entre um gole e outro, possamos reviver idos tempos.
Ainda que eu ache que não devamos contar com isso.

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Publicado por Renato Alt



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