14 de fev de 2011

:: Inção ::

Foi ontem?

Desculpe, não lembro. Pode ter sido ontem.
Ou pode ter sido mês passado. Ou ano passado. Ou em outra vida.
Importa?

Eu lhe dizia tanto, do tão profundo que vinha de mim, mas parecia falar ao vento. Seu sorriso concordava mas nada dizia, e deixava passar o momento sem mostrar-se claramente ao meu lado, ou compreensiva, ou mesmo contrária; jamais consegui desvendar-lhe o semblante, e hoje sei que assim era porque você assim queria. Foi custoso, sim, doloroso: enfim percebi que me queria distante, ainda que minhas mãos lhe tocassem os lábios, os seios ou as coxas. Percebi que me queria ausente ainda que suspirasse um arfar quente e úmido em meus ouvidos, ainda que, de olhos fechados, mostrasse-me seus lábios brancos tal a força que lhe imprimiam seus dentes, ao ponto de quase sangrarem. Vejo que queria-me ausente mesmo quando enterrava as unhas em minhas costas, ou empurrava as ancas contra mim e gritava seu grito mudo, sofrido, e vertia algumas lágrimas que jamais preocupei-me em decifrar: eram claras, até então.

Já não lembro de quando foi que aconteceu, no entanto. Quando foi que você tornou-se essa névoa algo indistinta em minha memória. Lembro de quando disparou contra mim as palavras que nos separaram, quando disse qualquer coisa sobre não estar pronta, ou sobre eu não estar. Lembro de um longo caminho de volta para casa e de relances de coisas que podem ou não ter sido ditas.

Lembro de haver mágoa. Não a mágoa de quem fere por saber ferir, mas a mágoa de quem fere porque lhe é indiferente, mágoa de alguém para quem é fácil seguir adiante e virar mais uma página, como tantas que já virou, e deixar que o tempo se encarregue de sepultar tudo em silêncio.

Pois sepultou, é fato.
Agora, o que há é sim o silêncio.

E você, então, já não sei mais em qual parte da minha memória se encaixa. Ou mesmo, confesso, se há lugar nela que lhe receba.

Talvez, então, haja em outro dia, em algum futuro.
Ou, quem sabe, em outra vida.
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Publicado por Renato Alt

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