30 de mar de 2011

:: Aérida ::

Quando o dia começava assim, como começara o de hoje, ela já sabia, e sentia de uma só vez tudo o que lhe aconteceria.

Há não tanto tempo mudara para aquela imensidão gelada, e ainda se flagrava surpresa quando, pela janela, via o punhado de árvores que pontuavam aqui e ali todo o campo coberto de neve, e que, no horizonte, confundia-se com o céu cinzento.

Não havia aquecimento na casa, e ela assim queria. Nada de eletricidade: a luz que enchia timidamente o ambiente vinha de um velho lampião a óleo.

E fora ele, o lampião, encontrado repousando em uma caixa, que pertencera à avó, o que fizera encher-se de sentido uma idéia romântica e anacrônica de autossuficiência, de simplicidade, de querer menos; ah, sempre quisera tanto mais, e buscara tanto mais, e trabalhara por tanto mais! Mas esse achado, pertencente a um tempo onde havia mais pessoas e menos coisas, mais apertos de mão e menos e-mails, que fez vir sobre si, avassaladora, uma onda de desapego e de cansaço, que fez vir sobre si uma urgência de fuga, de desaparecimento, de não ser.

Lembrara da casa de caça construída e esquecida. Se pudesse, nem mesmo teria usado o carro para chegar lá. Agora já não importava: estava coberto pelo mesmo manto branco, silencioso e cúmplice, que parecia simplesmente abraçá-la por inteiro, e compreendê-la, e respeitá-la.

Com um sorriso, mantinha juntas as mãos dentro de luvas, e o gorro, e a manta enrolada ao corpo; sobre a cama, descansando de sua narrativa, Salinger e Caufield repousavam, enquanto a madeira estalava, cuidadosa para não despertá-los, deixando-se consumir pelo fogo que fervia a água para o chá.

Mas ele, o chá, ciente de suas responsabilidades, trouxe os três de volta a si, quando pediu à chaleira que assoviasse educadamente e distribuísse no ar o cheiro de erva-mate.

E foi ela novamente para a cama, para o chá, e para si, sem pressa de voltar.



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Publicado por Renato Alt



23 de mar de 2011

:: Supérstite ::

Era um cansaço que não tinha nome. Era um desejo de nulidade, de inexistência; não de deixar de ser, mas ainda o de jamais ter sido: não ser sabido, sequer como conceito, não ser considerado, não ser objeto que possa ser citado. Era o desejo não de ser página em branco, mas sequer ser qualquer página.

Colocou-se diante do abismo, e como já ouvira de alguém, percebeu que esse o entendia e sussurrava-lhe gentilmente ao ouvido sugestões que não ousava admitir.

Atordoado pelo barulho das gotas de chuva que arremetiam furiosas contra o parabrisas, agora o mar tornava-se difícil de distinguir. A lua, que esgueirava-se por entre uma e outra nuvem, por vezes deixava refletir-se em uma ou outra onda que quebrava ao longe.

Fazia frio. Ele, no entanto, não quis ligar o aquecimento do carro. Ainda antes, tirou a camisa, abriu a porta e saiu tão subitamente que a si mesmo surpreendeu. Com o rosto levantado, deixou que a chuva corresse por seu rosto e lhe encharcasse as roupas, os ossos e o espírito.

Não era aquela a noite em que deixaria, ele, de ser.
Talvez um dia.
Talvez em breve.

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Publicado por Renato Alt

14 de mar de 2011

:: Abreviatura ::

Ele separara as cartas uma a uma, em ordem alfabética, para que não se perdesse, ele, em suas memórias e, ainda, naquilo que deveria ser dito a cada um.

Não eram muitas. Planejara escrever para sete nomes, mas havia aquele outro, o oitavo, que insistia em pronunciar-se.

Começava cada carta com esmero, preocupado com as palavras, com as letras, e dedicava especial atenção em torná-las não só legíveis, mas verdadeiras obras de arte: contornava bem os "as" e "os", cuidava de cada letra capitular. Mas conforme avançavam as frases, conforme sobrevinham sentimentos, da mesma forma comportavam-se as frases: acabavam por ser vomitadas e dispersas, e cada palavra se valia de esforço próprio para manter-se coesa à seguinte.

Passaram-se a manhã e a tarde, e enfim a noite chegara. A caixa com as cartas estava acomodada sobre a mesa, completa, mal contendo tudo aquilo que lhe fora imposto. A garrafa de vinho tinto seco, uma boa safra Cabernet, estava agora pela metade e acompanhava a vitrola - hoje, ele a preferira - que, incansável, distribuía a melodia de Luther Vandross.

Ele se aproximou da janela e olhou enquanto pessoas passavam apressadas pela noite, indiferentes ao que acontecia a ele, naquele quarto de hotel esquecido, em meio a manchas indecifráveis no carpete e ao cheiro de vinagre, vômito e desinfetante, que parecia ocupar cada centímetro.

No mais, já estava tudo arranjado: um terno cortado em seu tamanho, pronto para ser entregue na manhã seguinte. As contas, todas, pagas, e os assuntos com os bancos, encerrados. Não havia o que lhe pudessem cobrar, bem como nada que lhe pudessem, ao menos tanto quanto sabia, ofertar. Era chegada a hora.

Pouco depois da hora morta, e estava feito.

Como uma sombra que percorre o caminho sem ao menos ver por onde passa, alguém corre até seu quarto. Ele, contudo, já se despedira da noite.
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Publicado por Renato Alt