14 de mar de 2011

:: Abreviatura ::

Ele separara as cartas uma a uma, em ordem alfabética, para que não se perdesse, ele, em suas memórias e, ainda, naquilo que deveria ser dito a cada um.

Não eram muitas. Planejara escrever para sete nomes, mas havia aquele outro, o oitavo, que insistia em pronunciar-se.

Começava cada carta com esmero, preocupado com as palavras, com as letras, e dedicava especial atenção em torná-las não só legíveis, mas verdadeiras obras de arte: contornava bem os "as" e "os", cuidava de cada letra capitular. Mas conforme avançavam as frases, conforme sobrevinham sentimentos, da mesma forma comportavam-se as frases: acabavam por ser vomitadas e dispersas, e cada palavra se valia de esforço próprio para manter-se coesa à seguinte.

Passaram-se a manhã e a tarde, e enfim a noite chegara. A caixa com as cartas estava acomodada sobre a mesa, completa, mal contendo tudo aquilo que lhe fora imposto. A garrafa de vinho tinto seco, uma boa safra Cabernet, estava agora pela metade e acompanhava a vitrola - hoje, ele a preferira - que, incansável, distribuía a melodia de Luther Vandross.

Ele se aproximou da janela e olhou enquanto pessoas passavam apressadas pela noite, indiferentes ao que acontecia a ele, naquele quarto de hotel esquecido, em meio a manchas indecifráveis no carpete e ao cheiro de vinagre, vômito e desinfetante, que parecia ocupar cada centímetro.

No mais, já estava tudo arranjado: um terno cortado em seu tamanho, pronto para ser entregue na manhã seguinte. As contas, todas, pagas, e os assuntos com os bancos, encerrados. Não havia o que lhe pudessem cobrar, bem como nada que lhe pudessem, ao menos tanto quanto sabia, ofertar. Era chegada a hora.

Pouco depois da hora morta, e estava feito.

Como uma sombra que percorre o caminho sem ao menos ver por onde passa, alguém corre até seu quarto. Ele, contudo, já se despedira da noite.
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Publicado por Renato Alt

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