23 de mar de 2011

:: Supérstite ::

Era um cansaço que não tinha nome. Era um desejo de nulidade, de inexistência; não de deixar de ser, mas ainda o de jamais ter sido: não ser sabido, sequer como conceito, não ser considerado, não ser objeto que possa ser citado. Era o desejo não de ser página em branco, mas sequer ser qualquer página.

Colocou-se diante do abismo, e como já ouvira de alguém, percebeu que esse o entendia e sussurrava-lhe gentilmente ao ouvido sugestões que não ousava admitir.

Atordoado pelo barulho das gotas de chuva que arremetiam furiosas contra o parabrisas, agora o mar tornava-se difícil de distinguir. A lua, que esgueirava-se por entre uma e outra nuvem, por vezes deixava refletir-se em uma ou outra onda que quebrava ao longe.

Fazia frio. Ele, no entanto, não quis ligar o aquecimento do carro. Ainda antes, tirou a camisa, abriu a porta e saiu tão subitamente que a si mesmo surpreendeu. Com o rosto levantado, deixou que a chuva corresse por seu rosto e lhe encharcasse as roupas, os ossos e o espírito.

Não era aquela a noite em que deixaria, ele, de ser.
Talvez um dia.
Talvez em breve.

•••
Publicado por Renato Alt

Nenhum comentário: