26 de abr de 2011

:: Linígero ::


Não se dera conta até que enfim ela fora acomodada, e que enfim mãos afoitas, impessoais, se apressassem para cobri-la com terra. Pensou que talvez devesse chorar: todos esperavam que o fizesse, e arriscavam uma espiadela com o canto dos olhos para verificar se alguma lágrima escorria.


Ele, no entanto, permanecia indecifrável.
"Ainda que haja que ser quebrado, para ser sentido o coração." - repetiu em um murmúrio que poucos perceberam, relembrando algum momento perdido.


Estavam em pé, todos, mãos nos bolsos, enquanto a chuva fina e gelada encharcava roupas, ossos, pensamentos.


Sua mente vagava, alcançando tantos lugares que já não percebia o cansaço nas próprias pernas, e já não correspondia quando alguém passava ao seu lado e, solidário, tocava-lhe o ombro.


O final do dia estava próximo. O final do mais longo de todos os dias.


Agora, voltaria pra casa. Não tinha planos de regressar àquele lugar. Não via sentido em fazê-lo. Sabia que era outra das coisas que esperavam de si, como esperavam que talvez soluçasse ou que precisasse de ajuda para caminhar.


Percebeu os olhares sobre si quando tirou as mãos dos bolsos do sobretudo. Percebeu o ar parado, e o tempo, imóvel. Toda a criação se detivera naquela fração de minuto, em expectativa ante seu próximo movimento. Ele, no entanto, apenas tirou as luvas, suspirou e, subitamente, virou-se para caminhar para a saída.


Alguns ameaçaram uma palavra, um gesto; nada, porém, se concretizou. E observaram enquanto a figura de preto desaparecia na neblina, sem olhar para trás.





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Publicado por Renato Alt

11 de abr de 2011

:: Pantomima ::

É insuportável a eterna felicidade em que todo mundo finge viver: alegrias em subnicks, em mensagens de PowerPoint, em conversas vazias sobre o final de semana, enquanto esperam que a máquina lhes sirva um café.


A máquina.


Não resta nada para nós agora. Custei, entendi: é demais o que há para lidar, é demais o que há para pensar, e seríamos, somos, intragáveis um para o outro, assim, como somos, como queremos ser e da maneira que queremos continuar, imutáveis em nossos sonhos perdidos e desejos esquecidos, por entre as trincheiras que a sobrevivência nos fez abrir.


É demais para falar agora: não tenho palavras o suficiente para discorrer, e sei que nem você o tempo - e, menos ainda, a vontade - para ouvir. E, verdade seja dita, já não quero que ouça: tudo isso a deixaria ciente demais, lúcida demais, a respeito do que de fato sou: coisa tão longe desta imagem que lhe mostro, que mostro a todos, que escondo com o sorriso e da qual desvio atenção com uma ou outra colocação bem-humorada.


Siga então seu caminho, enquanto eu a olho à distância. Volta e meia percebo seu aceno, mas sei que já não me chama, e ainda que o fizesse, sei que eu não responderia.


Adiante, porque é preciso, ainda que a vontade, fria, dura e imponente, seja a de permanecer quieto, ileso, confuso e confortável, nesta toca de inexistência na qual escolhemos nos confinar.






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Publicado por Renato Alt

6 de abr de 2011

:: Haríolo ::


Ele já não sabia ao certo há quanto tempo estava naquele lugar.


A clareira era um círculo perfeito, e a chuva recente fazia subir do solo o cheiro de terra e de folhas, o cheiro de umidade que entranhava na madeira e lhe tomava até os ossos. Tinha as roupas encharcadas. As barras das calças pesavam uma tonelada, e carregavam lama, água, mato e restos de dignidade. Perdera os calçados há tempos, quando atravessou o rio, contrariando todos os conselhos daquele velho que aparecera do nada e que da mesma forma desvanecera no ar. Seguira adiante porque já se tornara menor o caminho até o fim do que aquele de volta ao início; já suportara o frio, os espinhos e os medos que a noite apresentava, confiante que estava no que havia sonhado: era a revelação pela qual tanto esperou.


Encontrava-se com os raios do sol pela primeira vez em muitos dias: a floresta, densa, recusava-se a deixá-los passar pelas copas das árvores, mais altas do que o pescoço permitia ver. Avançara contrariando seu instinto, agarrando com tanta força a pedra que o conduzira até ali que quase fazia sangrar as mãos. Mas enfim chegara. Suspensos no ar, estavam polem e poeira, e pequenos animais alados e pensamentos fugidios e vozes daqueles que um dia passaram por ali.


Escondida por décadas de musgo, de fungos e de incredulidade, a porta era real. Demorou um tanto até achá-la: entre duas pedras gêmeas, lembrava um alçapão. As pedras, pensou ele, talvez fossem apoio para as mãos quando, em tempos imemoriais, criaturas que nunca existiram subiam e desciam pelas escadas ocultas, transitando com suas coisas e desejos, e ele podia jurar ouvir o burburinho de suas conversas e de sua pressa.


O frio da manhã tocava as roupas e enregelava-o. Percebia, não com os olhos mas com a razão, que era observado por aqueles cujos nomes se perderam, e que cada um dos seus movimentos era acompanhado com curiosidade e apreensão. 


Avançou alguns passos e, cauteloso, removeu o mato de cima da porta. Viu a madeira escura, dura como pedra, entalhada com motivos que não reconhecia, esculpida com esmero a partir de alguma ávore que não podia reconhecer.


A fechadura, de um dourado velho, tentava ocultar-se com trepadeiras e fungos. Do seu alforje, tomou a chave e colocou-a ali. Precisou girá-la com mais força do que julgava ter, até que uma estalo seco, ruidoso, malcriado, fez voar por aqui e por ali todo tipo de criatura alada: ele, no entanto, podia apenas ouvi-las; não lhe era permitido, ao menos ainda, ver qualquer uma delas.


Com suor, venceu a relutância da porta e das dobradiças.


Um vento solene, de uma antiguidade ímpia, subiu do túnel negro como breu. Os cinco primeiros degraus eram visíveis; todo o resto permanecia engolido pela escuridão.


Temeroso, determinado, respirou fundo ainda outra vez, e permitiu-se um último olhar em volta antes de descer.


Seguiu, então, com passos temerosos, deixando atrás de si testemunhas silenciosas e invisíveis, que se perguntavam se um dia ele voltaria, e se voltasse, o que traria; Mais ainda, o que diria sobre o lugar aonde fora e que eles mesmos já não viam há tanto tempo: aquele lugar que nunca, jamais, existiu.




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Publicado por Renato Alt