6 de abr de 2011

:: Haríolo ::


Ele já não sabia ao certo há quanto tempo estava naquele lugar.


A clareira era um círculo perfeito, e a chuva recente fazia subir do solo o cheiro de terra e de folhas, o cheiro de umidade que entranhava na madeira e lhe tomava até os ossos. Tinha as roupas encharcadas. As barras das calças pesavam uma tonelada, e carregavam lama, água, mato e restos de dignidade. Perdera os calçados há tempos, quando atravessou o rio, contrariando todos os conselhos daquele velho que aparecera do nada e que da mesma forma desvanecera no ar. Seguira adiante porque já se tornara menor o caminho até o fim do que aquele de volta ao início; já suportara o frio, os espinhos e os medos que a noite apresentava, confiante que estava no que havia sonhado: era a revelação pela qual tanto esperou.


Encontrava-se com os raios do sol pela primeira vez em muitos dias: a floresta, densa, recusava-se a deixá-los passar pelas copas das árvores, mais altas do que o pescoço permitia ver. Avançara contrariando seu instinto, agarrando com tanta força a pedra que o conduzira até ali que quase fazia sangrar as mãos. Mas enfim chegara. Suspensos no ar, estavam polem e poeira, e pequenos animais alados e pensamentos fugidios e vozes daqueles que um dia passaram por ali.


Escondida por décadas de musgo, de fungos e de incredulidade, a porta era real. Demorou um tanto até achá-la: entre duas pedras gêmeas, lembrava um alçapão. As pedras, pensou ele, talvez fossem apoio para as mãos quando, em tempos imemoriais, criaturas que nunca existiram subiam e desciam pelas escadas ocultas, transitando com suas coisas e desejos, e ele podia jurar ouvir o burburinho de suas conversas e de sua pressa.


O frio da manhã tocava as roupas e enregelava-o. Percebia, não com os olhos mas com a razão, que era observado por aqueles cujos nomes se perderam, e que cada um dos seus movimentos era acompanhado com curiosidade e apreensão. 


Avançou alguns passos e, cauteloso, removeu o mato de cima da porta. Viu a madeira escura, dura como pedra, entalhada com motivos que não reconhecia, esculpida com esmero a partir de alguma ávore que não podia reconhecer.


A fechadura, de um dourado velho, tentava ocultar-se com trepadeiras e fungos. Do seu alforje, tomou a chave e colocou-a ali. Precisou girá-la com mais força do que julgava ter, até que uma estalo seco, ruidoso, malcriado, fez voar por aqui e por ali todo tipo de criatura alada: ele, no entanto, podia apenas ouvi-las; não lhe era permitido, ao menos ainda, ver qualquer uma delas.


Com suor, venceu a relutância da porta e das dobradiças.


Um vento solene, de uma antiguidade ímpia, subiu do túnel negro como breu. Os cinco primeiros degraus eram visíveis; todo o resto permanecia engolido pela escuridão.


Temeroso, determinado, respirou fundo ainda outra vez, e permitiu-se um último olhar em volta antes de descer.


Seguiu, então, com passos temerosos, deixando atrás de si testemunhas silenciosas e invisíveis, que se perguntavam se um dia ele voltaria, e se voltasse, o que traria; Mais ainda, o que diria sobre o lugar aonde fora e que eles mesmos já não viam há tanto tempo: aquele lugar que nunca, jamais, existiu.




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Publicado por Renato Alt

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