26 de abr de 2011

:: Linígero ::


Não se dera conta até que enfim ela fora acomodada, e que enfim mãos afoitas, impessoais, se apressassem para cobri-la com terra. Pensou que talvez devesse chorar: todos esperavam que o fizesse, e arriscavam uma espiadela com o canto dos olhos para verificar se alguma lágrima escorria.


Ele, no entanto, permanecia indecifrável.
"Ainda que haja que ser quebrado, para ser sentido o coração." - repetiu em um murmúrio que poucos perceberam, relembrando algum momento perdido.


Estavam em pé, todos, mãos nos bolsos, enquanto a chuva fina e gelada encharcava roupas, ossos, pensamentos.


Sua mente vagava, alcançando tantos lugares que já não percebia o cansaço nas próprias pernas, e já não correspondia quando alguém passava ao seu lado e, solidário, tocava-lhe o ombro.


O final do dia estava próximo. O final do mais longo de todos os dias.


Agora, voltaria pra casa. Não tinha planos de regressar àquele lugar. Não via sentido em fazê-lo. Sabia que era outra das coisas que esperavam de si, como esperavam que talvez soluçasse ou que precisasse de ajuda para caminhar.


Percebeu os olhares sobre si quando tirou as mãos dos bolsos do sobretudo. Percebeu o ar parado, e o tempo, imóvel. Toda a criação se detivera naquela fração de minuto, em expectativa ante seu próximo movimento. Ele, no entanto, apenas tirou as luvas, suspirou e, subitamente, virou-se para caminhar para a saída.


Alguns ameaçaram uma palavra, um gesto; nada, porém, se concretizou. E observaram enquanto a figura de preto desaparecia na neblina, sem olhar para trás.





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Publicado por Renato Alt

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