24 de mai de 2011

:: Liturgia ::

Ele saiu da embarcação com a certeza de que ficaria louco.


Andou apressado tentando não pensar tanto, e via os rostos das pessoas que passavam, e sentia aumentar a aflição, e se perguntava como era possível que ninguém percebesse que ele, ali, ficaria louco, e parecia poder ouvir as vozes de todos eles, de todo o mundo, e não havia qualquer um que se importasse.


A camisa parecia querer lhe estrangular. O portão de saída fugia a cada passo.
Suor. Dormência na língua, nas mãos. As pernas, agora, pesavam toneladas.

Precisava parar. Precisava respirar.

Procurava em que se apoiar.


Garganta seca.
Queria vomitar. Queria mandar todos calarem a boca, ainda que por apenas um segundo. Tudo estava distorcido: os rostos, os sons, as cores. O coração saltava com tal força em seu peito que pensava ser possível que todos à sua volta ouvissem.


Encontrou um banco, junto à árvore. Sentou, cabeça entre as pernas, mãos pressionando as têmporas. Olhos fechados. Suor. Ficaria louco, tinha certeza. Precisava se concentrar, saber-se ali, ou enlouqueceria.


Respirou fundo uma, duas, três vezes. Havia o barulho de motores, de conversas cortadas, e calor, e poeira. Havia pensamentos inundando sua mente com tal profusão que parecia sentir a lucidez e a razão serem soterrados pela infinidade de imagens, possibilidades, temores e desejos que apresentavam-se ininterruptamente.


Rangeu os dentes. Apertou os olhos.


Respirou fundo uma, duas, três vezes.
Enfim sentiu a brisa fresca que o mar lhe ofertava, e percebeu que ela levava consigo a náusea e o suor.


Agora, sentia frio. Aos poucos sentia novamente ter controle das mãos, das pernas, de si mesmo. Sentia o coração acomodar-se.


Levantou os olhos, contemplou em derredor; ninguém o via ali.


Colocou-se de pé, estranhamente constrangido. Ajeitou a roupa. Seguiu em frente, torcendo para que ninguém viesse, agora, perguntar se estava bem.


Mas não havia o que temer: ninguém o vira ali.








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Publicado por Renato Alt

14 de mai de 2011

:: Uredo ::

Vinha de alguma coisa entalada na garganta, que ele, por tanto tempo, empurrava de volta para algum lugar esquecido em suas entranhas, valendo-se do gosto forte de vodca e do torpor que ela, oferecida, lhe ofertava após um gole ou dois.


Mas, depois, vinha a revolta pela palavra não dita. Ele a via, e sabia o que deveria dizer, e sabia que a machucaria, mas que não havia mais volta: a verdade urrava por se fazer saber, ainda que cruel; "a liberdade não é conquistada facilmente", dizia para si mesmo, e ele não podia privá-la de uma que ela nem ao menos sabia ter. Era chegada a hora, há tanto era chegada a hora, mas ele, displicente, arrogante, postergava, de ebriedade em ebriedade, e deixava que a poeira do tempo sufocasse sentimentos até que eles mal se pudessem distinguir.


Agora, esperava que ela irrompesse porta adentro, como vinha fazendo. Ele permanecia na pequena mesa de centro, retangular, de apenas duas cadeiras, e olhava fixamente para a maçaneta: esperava pelo momento em que ela giraria, e tal pensamento fazia formigar-lhe a lingua, a pele, acelerar o coração. Covarde, sorvia outro gole da bebida forte e amarga, lutava para manter abertos os olhos e a postos a coragem. Rangia os dentes, como predador que anseia por morder a liberdade que nem lembrava existir; rangia como alguém que sentia abrir mão de parte de si mesmo a fim de permitir uma existência tolerável a quem lhe dedicara tantos anos, tanto tempo, tanta juventude; a fim de que os anos a seguir lhes permitissem ao menos alguma lucidez, já que o vigor fora exigido por aqueles que passaram.


Percebia que ela chegara. Respirou fundo enquanto ouvia a chave girar na fechadura.


Outro gole, e um sorriso trêmulo: era hora.




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Publicado por Renato Alt

4 de mai de 2011

:: Miraculado ::

A certeza chegara com serenidade. Era, talvez, o alívio que buscara durante tantos anos, em tantos rostos, em tantos olhares, em tantas palavras largadas em tantas noites perdidas, para tantos rostos sorridentes.


Suspirou. A casa de campo, fechada havia tanto, parecia acanhada ao recebê-lo. Deixou, sobre a mesa redonda da sala, uma caixa com a companhia que pretendia ter nas próximas semanas: Veríssimo, García Márquez, Carlos Ruiz Zafón, Clarice Lispector. Falariam consigo quando quisesse.


Não havia eletricidade, e assim preferia. Abriu a janela, depois de soltar a trava de madeira, e pôde ver cada um dos minúsculos grãos de poeira, que brilhavam em saudação sob a luz do final da tarde. Inspirou o cheiro de umidade e solidão, e percebeu, afinal, o óbvio: a vida não tem o mesmo curso para todos, e é preciso que hajam aqueles que dão sentido ao que os outros fazem: são os que seguem solitários por toda a jornada. Entendeu que talvez algumas coisas não lhe estivessem reservadas, e que era essa a aceitação que, enfim, poderia lhe dar a paz de espírito que lhe fora roubada tantas vezes, em meio à fumaça adocicada das pistas de dança, em boates noites afora.


Acendeu o lampião, abriu o vinho. Começaria agora.






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Publicado por Renato Alt