4 de mai de 2011

:: Miraculado ::

A certeza chegara com serenidade. Era, talvez, o alívio que buscara durante tantos anos, em tantos rostos, em tantos olhares, em tantas palavras largadas em tantas noites perdidas, para tantos rostos sorridentes.


Suspirou. A casa de campo, fechada havia tanto, parecia acanhada ao recebê-lo. Deixou, sobre a mesa redonda da sala, uma caixa com a companhia que pretendia ter nas próximas semanas: Veríssimo, García Márquez, Carlos Ruiz Zafón, Clarice Lispector. Falariam consigo quando quisesse.


Não havia eletricidade, e assim preferia. Abriu a janela, depois de soltar a trava de madeira, e pôde ver cada um dos minúsculos grãos de poeira, que brilhavam em saudação sob a luz do final da tarde. Inspirou o cheiro de umidade e solidão, e percebeu, afinal, o óbvio: a vida não tem o mesmo curso para todos, e é preciso que hajam aqueles que dão sentido ao que os outros fazem: são os que seguem solitários por toda a jornada. Entendeu que talvez algumas coisas não lhe estivessem reservadas, e que era essa a aceitação que, enfim, poderia lhe dar a paz de espírito que lhe fora roubada tantas vezes, em meio à fumaça adocicada das pistas de dança, em boates noites afora.


Acendeu o lampião, abriu o vinho. Começaria agora.






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Publicado por Renato Alt

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