14 de mai de 2011

:: Uredo ::

Vinha de alguma coisa entalada na garganta, que ele, por tanto tempo, empurrava de volta para algum lugar esquecido em suas entranhas, valendo-se do gosto forte de vodca e do torpor que ela, oferecida, lhe ofertava após um gole ou dois.


Mas, depois, vinha a revolta pela palavra não dita. Ele a via, e sabia o que deveria dizer, e sabia que a machucaria, mas que não havia mais volta: a verdade urrava por se fazer saber, ainda que cruel; "a liberdade não é conquistada facilmente", dizia para si mesmo, e ele não podia privá-la de uma que ela nem ao menos sabia ter. Era chegada a hora, há tanto era chegada a hora, mas ele, displicente, arrogante, postergava, de ebriedade em ebriedade, e deixava que a poeira do tempo sufocasse sentimentos até que eles mal se pudessem distinguir.


Agora, esperava que ela irrompesse porta adentro, como vinha fazendo. Ele permanecia na pequena mesa de centro, retangular, de apenas duas cadeiras, e olhava fixamente para a maçaneta: esperava pelo momento em que ela giraria, e tal pensamento fazia formigar-lhe a lingua, a pele, acelerar o coração. Covarde, sorvia outro gole da bebida forte e amarga, lutava para manter abertos os olhos e a postos a coragem. Rangia os dentes, como predador que anseia por morder a liberdade que nem lembrava existir; rangia como alguém que sentia abrir mão de parte de si mesmo a fim de permitir uma existência tolerável a quem lhe dedicara tantos anos, tanto tempo, tanta juventude; a fim de que os anos a seguir lhes permitissem ao menos alguma lucidez, já que o vigor fora exigido por aqueles que passaram.


Percebia que ela chegara. Respirou fundo enquanto ouvia a chave girar na fechadura.


Outro gole, e um sorriso trêmulo: era hora.




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Publicado por Renato Alt

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