29 de jun de 2011

:: Excerto ::

Ao olhar desatento, em desalento, não me faço notar; Mas se deixares, chego sem fingimento, e por mais que um momento, far-me-ás ficar.


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Publicado por Renato Alt

26 de jun de 2011

:: Hialo ::

Nem pensava em negar. Ainda que quisesse, não poderia: as palavras saíam emboladas de sua boca, cheirando a vinho e a uísque, e por mais que se esforçassem por fazer sentido, por mais que dessem as mãos umas às outras buscando coerência, nada conseguiam transmitir.


Ele entrou em casa fingindo sobriedade, enquanto ela perscrutava cada centímetro do seu corpo, cada som de sua fala, cada desvio no olhar que seus semblante denunciava. Estaria dormindo, pensara ele; estaria dormindo, queria ela. No entanto, havia realidade demais, e palavras não ditas demais, e silêncio demais para que aquela noite pudesse passar impune, calma, como qualquer outra noite desse verão quente como o inferno.


Quando entrou, ele pensou em dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Ela pensou querer ouvir alguma coisa, qualquer coisa. Mas não faria sentido. Não pela ebriedade ou pela hora da madrugada: mas porque qualquer coisa que houvesse a dizer já deveria ter sido dita há tempos, ouvida há tempos, absorvida há tempos e, talvez, vivida há tempos, de maneira que nem ao menos tivessem que chegar a esse momento que aqui, agora, se mostra tão desconfortável, tão ausente de sentimentos, tão estéril e impessoal.


Ela murmura dizendo que há café na jarra. Sugere que ele o tome sem açúcar. Cambaleando trailer adentro, ele não tenta esboçar resposta. Contorce o rosto numa reprovação complacente enquanto se apóia em direção àquilo que, por falta de nome melhor, chamavam de cozinha, e servia-se, na caneca ainda suja, daquele líquido espesso e amargo que um dia fora café.


Ela voltara para a cama. Em silêncio. Ele ainda passaria mais alguns minutos, ou horas, pensando no que fizera para que chegassem aonde estavam, e em que vida se metera para que ali chegassem, e por que diabos trouxera consigo aquela que, de lá da cama, suspirava dolorida e profundamente os sonhos de uma vida melhor.


Ainda que lhe queimasse a língua, bebeu o café. E, incapaz de ir até a cama mais por vergonha do que pela bebedeira, pusera-se a dormir no arremedo de sofá que havia em frente à TV, enquanto um lutador punha a nocaute seu adversário, ainda no primeiro round.




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Publicado por Renato Alt

16 de jun de 2011

:: Galicanto ::

Ele desceu do trem, que terminava a viagem com o prazer de quem presta um favor a um amigo: não era a maneira mais rápida de chegar à cidade, certamente não a mais prática, mas era, sim, a mais charmosa, e era assim que queria chegar: na pequena estação, mantida aberta por teimosia da prefeitura, e que hoje tinha no octagenário vendedor de bilhetes - igualmente teimoso - o retrato do tempo que passou e, ao mesmo tempo, parou no meio daquelas paredes.


Consigo, trazia apenas a velha mala dura, antiga, e um sorriso sem tamanho no rosto: respirou fundo, deixando tomar-lhe os pulmões aquele ar frio e úmido da manhã, carregado do perfume de flores que, agora, punham-se a dormir, cobertas pela fina névoa do dia que despertava.


Tirou os sapatos. O velho, usando uma viseira, parecia um quadro esquecido em uma galeria, e olhava-o sem esboçar qualquer reação. Voltou a ler o que quer que fosse que estivesse lendo, deixando o recém-chegado à vontade. Não que já não estivesse: levando adiante o sorriso, sentia o frio nas solas dos pés e saboreava o leve arrepio que provocava. Avistava, por entre as colunas da estação, a pequena vila com sua dúzia e meia de casas, quase escondidas por árvores de copas imensas.


Pôs-se a andar. Atravessou o pequeno salão, chegou à calçada, e deixou que seus pensamentos alcançassem o final da rua antes que ele mesmo desse o primeiro passo.


Queria sentir-se em casa, antes que precisasse, de fato, estar em casa.






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Publicado por Renato Alt

7 de jun de 2011

:: A.R. ::

Já não tinha tanta importância agora.


Ele lutara por aquilo por tanto tempo, e contra tantos, e contra tanto, que chegara mesmo a esquecer pelo que lutava. Agora, tinha nas mãos, mas lhe parecia desprovido de qualquer valor.


Chegou até a mesa e deixou-se cair sentado na cadeira. A garrafa de vinho estava pela metade; nem mesmo preocupou-se em buscar uma taça. Como estava, cansado como estava, sujo como estava, desprovido de qualquer sentimento como estava, tirou a rolha e bebeu direto do gargalo, em um gole só, quase tudo o que restava do vinho quente, ainda que um tanto lhe escorresse pelo pescoço e manchasse a camisa.



O que queria, ou achava que queria, agora estava ali, carregando uma completa, absoluta, ausência de razão de ser, de estar ali. Era alta madrugada, pouco se ouvia da rua: um ou outro carro que passava com o som alto, despistando a bebedeira e a solidão daquele que o conduzia.


Estendeu a mão, e era estranho ao toque. Sentia uma leve corrente, como de eletricidade, percorrer-lhe os braços, lembrando, assim, quenada daquilo deveria estar acontecendo.


Mas já estava. A decisão já fora tomada.
Mais um suspiro, e engole o resto do vinho.
O estilete em sua mão direita faz o primeiro corte: que assim seja, então.




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Publicado por Renato Alt

1 de jun de 2011

:: Rêmige ::

A vida inteira se sentira assim, mas só agora, aos poucos, a coisa começava a tomar forma: e a forma que tinha, sabia, não encaixava-se em lugar algum.


Não servia para aquele acordar do relógio, para as caixas motorizadas que o levavam e traziam, a cada oito horas, pelo mesmo percurso dia após dia. Entendia, enfim, que o que não suportava não era a comida, mas o comer, porque punha-se esperando em fila, prato em riste, até que alguém à sua frente finalmente decidisse o que pegaria; percebia que os duzentos ou trezentos gramas que a balança acusava na verdade exigiam força hercúlea dos seus braços e ombros para serem sustentados.


Viu que, afinal, o problema não era a companhia, mas o acompanhar, o estar ao redor de pessoas que falavam umas das outras como se elas mesmas não estivessem ali, e que comemoravam vitórias para problemas que, afinal, não eram seus: eram de alguém que os pagava, e nem ao menos o justo, e cujo nome precisavam pensar para lembrar.


Percebeu-se, finalmente, encontrado em meio à toda a sua confusão, à toda sua inadequação: não era feito para permanecer, mas para estar; não era feito para determinar, mas para experimentar. E precisava, mais do que tudo, de saber-se passível de perder-se por aí, sem número que lhe dissesse quem é, onde está, ou o que fazer.


Enfim, percebeu-se.
E agora, apavorado, sorria em paz.


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Publicado por Renato Alt