16 de jun de 2011

:: Galicanto ::

Ele desceu do trem, que terminava a viagem com o prazer de quem presta um favor a um amigo: não era a maneira mais rápida de chegar à cidade, certamente não a mais prática, mas era, sim, a mais charmosa, e era assim que queria chegar: na pequena estação, mantida aberta por teimosia da prefeitura, e que hoje tinha no octagenário vendedor de bilhetes - igualmente teimoso - o retrato do tempo que passou e, ao mesmo tempo, parou no meio daquelas paredes.


Consigo, trazia apenas a velha mala dura, antiga, e um sorriso sem tamanho no rosto: respirou fundo, deixando tomar-lhe os pulmões aquele ar frio e úmido da manhã, carregado do perfume de flores que, agora, punham-se a dormir, cobertas pela fina névoa do dia que despertava.


Tirou os sapatos. O velho, usando uma viseira, parecia um quadro esquecido em uma galeria, e olhava-o sem esboçar qualquer reação. Voltou a ler o que quer que fosse que estivesse lendo, deixando o recém-chegado à vontade. Não que já não estivesse: levando adiante o sorriso, sentia o frio nas solas dos pés e saboreava o leve arrepio que provocava. Avistava, por entre as colunas da estação, a pequena vila com sua dúzia e meia de casas, quase escondidas por árvores de copas imensas.


Pôs-se a andar. Atravessou o pequeno salão, chegou à calçada, e deixou que seus pensamentos alcançassem o final da rua antes que ele mesmo desse o primeiro passo.


Queria sentir-se em casa, antes que precisasse, de fato, estar em casa.






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Publicado por Renato Alt

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