26 de jun de 2011

:: Hialo ::

Nem pensava em negar. Ainda que quisesse, não poderia: as palavras saíam emboladas de sua boca, cheirando a vinho e a uísque, e por mais que se esforçassem por fazer sentido, por mais que dessem as mãos umas às outras buscando coerência, nada conseguiam transmitir.


Ele entrou em casa fingindo sobriedade, enquanto ela perscrutava cada centímetro do seu corpo, cada som de sua fala, cada desvio no olhar que seus semblante denunciava. Estaria dormindo, pensara ele; estaria dormindo, queria ela. No entanto, havia realidade demais, e palavras não ditas demais, e silêncio demais para que aquela noite pudesse passar impune, calma, como qualquer outra noite desse verão quente como o inferno.


Quando entrou, ele pensou em dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Ela pensou querer ouvir alguma coisa, qualquer coisa. Mas não faria sentido. Não pela ebriedade ou pela hora da madrugada: mas porque qualquer coisa que houvesse a dizer já deveria ter sido dita há tempos, ouvida há tempos, absorvida há tempos e, talvez, vivida há tempos, de maneira que nem ao menos tivessem que chegar a esse momento que aqui, agora, se mostra tão desconfortável, tão ausente de sentimentos, tão estéril e impessoal.


Ela murmura dizendo que há café na jarra. Sugere que ele o tome sem açúcar. Cambaleando trailer adentro, ele não tenta esboçar resposta. Contorce o rosto numa reprovação complacente enquanto se apóia em direção àquilo que, por falta de nome melhor, chamavam de cozinha, e servia-se, na caneca ainda suja, daquele líquido espesso e amargo que um dia fora café.


Ela voltara para a cama. Em silêncio. Ele ainda passaria mais alguns minutos, ou horas, pensando no que fizera para que chegassem aonde estavam, e em que vida se metera para que ali chegassem, e por que diabos trouxera consigo aquela que, de lá da cama, suspirava dolorida e profundamente os sonhos de uma vida melhor.


Ainda que lhe queimasse a língua, bebeu o café. E, incapaz de ir até a cama mais por vergonha do que pela bebedeira, pusera-se a dormir no arremedo de sofá que havia em frente à TV, enquanto um lutador punha a nocaute seu adversário, ainda no primeiro round.




•••
Publicado por Renato Alt

Um comentário:

Fellippe disse...

Texto do tipo que temos que voltar ao início depois de chegar ao fim. Tal como "Os Outros" ou "Inception".

E voltamos!