1 de jun de 2011

:: Rêmige ::

A vida inteira se sentira assim, mas só agora, aos poucos, a coisa começava a tomar forma: e a forma que tinha, sabia, não encaixava-se em lugar algum.


Não servia para aquele acordar do relógio, para as caixas motorizadas que o levavam e traziam, a cada oito horas, pelo mesmo percurso dia após dia. Entendia, enfim, que o que não suportava não era a comida, mas o comer, porque punha-se esperando em fila, prato em riste, até que alguém à sua frente finalmente decidisse o que pegaria; percebia que os duzentos ou trezentos gramas que a balança acusava na verdade exigiam força hercúlea dos seus braços e ombros para serem sustentados.


Viu que, afinal, o problema não era a companhia, mas o acompanhar, o estar ao redor de pessoas que falavam umas das outras como se elas mesmas não estivessem ali, e que comemoravam vitórias para problemas que, afinal, não eram seus: eram de alguém que os pagava, e nem ao menos o justo, e cujo nome precisavam pensar para lembrar.


Percebeu-se, finalmente, encontrado em meio à toda a sua confusão, à toda sua inadequação: não era feito para permanecer, mas para estar; não era feito para determinar, mas para experimentar. E precisava, mais do que tudo, de saber-se passível de perder-se por aí, sem número que lhe dissesse quem é, onde está, ou o que fazer.


Enfim, percebeu-se.
E agora, apavorado, sorria em paz.


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Publicado por Renato Alt

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