7 de jul de 2011

:: Goa ::

A mochila estava vazia à sua frente.


Não sabia ainda o que levaria na viagem, mas sabia que, fosse o que fosse, deveria caber ali.


Separou camisetas. Cinco. Roupa de baixo. 20. Uma segunda pele ao invés de agasalho: ocuparia menos espaço, e tudo o que queria era que, uma vez em seus ombros, a mochila não lhe pesasse tanto, e que pudesse ser colocada por detrás de suas pernas quando estivesse em um dos trens com mais gente do que podem levar.


Três vidros da medicação. Chegara a pensar em não levar nenhum, mas a covardia gritou-lhe nos ouvidos até que quase o fizera surdo e então, resignado, os colocou ali, antecipando o pânico que, agora, agendava para o primeiro contratempo que se apresentasse.


Canetas, muitas. O caderno com capa de couro que, desde que fora comprado, exigia utilização decente, e ele lhe prometera que seria esta; afinal, o tempo corre contra todos, e nada será mais simples de fazer amanhã do que é hoje.


Continuava apavorado. Continuava ansioso. A voz em seu espírito tentava sufocar o temor, e ele bem sabia que era compromisso que devia a si mesmo: ir além dessa falta de propósito que impõe um carro melhor, uma casa melhor, um cartão com limite maior, em detrimento de tanto mundo que há para ser descoberto, revelado; de tanto horizonte que há pra ser explorado e que, ainda que vivesse cem vidas, jamais seria inteiramente coberto.


Mas com a que tem, decidira-se a fazê-lo, tanto quanto pudesse.


Passaporte, carimbos, visto.
Respirou fundo, olhos marejados, prometendo aos dois, em silêncio, que veriam mais do que os dias cinzas, convicto de que a volta lhe traria pra casa, ainda que permanecesse no lugar onde fora, até o fim dos seus dias.






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Publicado por Renato Alt

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